Acordo de Lusaka entre Lisboa e a Frelimo, visando regular a
independência de Moçambique (6 de Setembro)
Concretizada a independência da Guiné-Bissau (10 de Setembro),
depois do acordo de Argel de 26 de Agosto, entre Lisboa e o PAIGC
Etiópia: derrubado Hailé Selassié (12 de Setembro). Instituído um
governo militar provisório.
Independência da Papuásia-Nova Guiné (16 de Setembro)

Primeiro apelo de Spínola à maioria silenciosa
para que se manifeste (10 de Setembro). Ao ouvi-lo
falar, a voz entrecortada por trémulos de agoiro, as faces cada vez mais caídas,
o monóculo ainda mais enterrado na órbita escavada por uma crescente aflição,
vejo nele a encarnação do "fatum" cravado no horizonte da bacanal
revolucionária. Uma fatalidade bizarramente corporizada na sua mão enluvada de
náufrago a agarrar-se à tábua impalpável da maioria silenciosa (Natália Correia).
PPD, no dia 11, apoia Spínola,
considerando que o discurso constitui um solene aviso e uma advertência
contra totalitarismos reaccionários e revolucionários. No mesmo sentido,
o CDS.
Documento dos
operacionais – Em 24 de Agosto começa a circular nos quartéis um documento
elaborado por militares spinolistas (Engrácia Antunes e
Hugo dos Santos), onde se propõe
a extinção da comissão coordenadora do MFA.
O documento recebe o apoio de Aurélio Trindade e Ramalho Eanes.
Partidos – Surge o primeiro número do jornal Tempo
Novo, dirigido por José Hipólito Raposo, ligado a elementos do Partido
Liberal (16 de Agosto). Explosão de bomba no Porto impede um projectado comício
do MDP (24 de Agosto). Constituída a Frente Democrática Unida, congregando
Partido do Progresso, Partido Liberal e PTDP (27 de Agosto). São presos 14
membros do MRPP quando colavam cartazes (28 de Agosto). PS sai do MDP, depois do
movimento anunciar participação nas eleições (29 de Agosto). Aparece o jornal
Bandarra, dirigido por Miguel Freitas da Costa (14 de Setembro). Conselho de
Ministros proíbe as actividades do Partido Nacionalista Português, por estar
ligado a legionários (17 de Setembro).
Tourada da Liga dos Combatentes Spínola assiste ao
concurso hípico da Taça das Nações e, à noite, acompanhado por Vasco Gonçalves,
vai à tourada da Liga dos Combatentes, onde é aclamado, enquanto Vasco é apupado
(26 de Setembro).
Começam as barricadas Começam as barricadas (27 de
Setembro). Na noite de 27 para 28 de Setembro, cerca de 70 elementos
considerados reaccionários são detidos e conduzidos para o RAL1, como
Moreira Baptista, Franco Nogueira, Kaúlza de Arriaga, Conde de Caria, Artur
Agostinho, Cazal Ribeiro e Manuel Maria Múrias.
Intentona pró MFA – A partir dos acontecimentos de 28 de
Setembro, o equilíbrio instável entre a presidência de Spínola e a governação de
Vasco Gonçalves, rompe-se, pelo que se
agrava o desviacionismo esquerdista do processo revolucionário,
com o inevitável controleirismo do PCP. Aquilo que, segundo a linguagem do MRPP,
não passa de um golpe fascista seguido de um contra-golpe social-fascista,
é então qualificado por Vasco Gonçalves
como o maior ataque em forma da reacção. E assim a direita transforma-se
num pecado, no tal inferno dos outros. Porque, para
o PPD, a direita passa a ser o CDS. Porque, para o CDS, a direita passam a ser
os partidos proibidos depois do 28 de Setembro de 1974. Mesmo o PS não se coíbe
em colaborar com o PCP na denúncia do desvio spinolista de direita,
apoiando os passos da política de descolonização, então dominante. A confusão é
tal que o próprio ministro da Justiça, um coerente defensor dos direitos
humanos, Salgado Zenha, chega a justificar a vaga de prisões por delitos de
opinião, então desencadeadas pelo PCP e pelo COPCON, alegando estar em causa uma
conspiração que tem em vista o assassinato de Vasco Gonçalves. A televisão até
mostra muitas garrafas de laranjada existentes na sede de um partido de direita
e que serviriam para cocktails Molotov.
Pelotões boçais do PCP – Um país entregue à
vigilância de brigadas civis, pelotões boçais do PCP e seus subúrbios
revolucionários que policiam as
estradas, vasculham carros e increpam autoritariamente transeuntes...
Enquanto os exploradores não enganam, enchendo
despudoradamente os tonéis com o suor dos enganados, estes enganam-se a si
próprios, vendendo a razão ao diabo por uma ditadura do proletariado que
semanticamente os inebria e factualmente os escraviza (Natália Correia).
Golpe encenado – Os acontecimentos
constituem uma nebulosa de equívocos que apenas certas vestais
revolucionárias passam a poder interpretar. Aquilo que a comunicação social e os
comunicados oficiais fazem parecer é aquilo que politicamente tem de ser e que a
populaça pensa que é. Com efeito, o MFA e os comunistas montam, a partir de
certos factos, a encenação de um golpe contra-revolucionário, obrigando as
forças políticas e sociais a terem de optar activamente pelo novo poder
estabelecido para poderem sobreviver. Porque quem não se manifestasse pela nova
situação, representada por Costa Gomes e Vasco Gonçalves, estava condenado a ser
considerado contra a revolução. Daí a vaga de manifestações de apoio e de
comunicados de júbilo a que, de forma adesiva, são obrigados o PS, o PPD e, em
certa medida, o próprio CDS.
Partir os dentes à reacção – Todos
procuram saltar para o interior, ou para os estribos, de um comboio
revolucionário, envolto na fumarada de uma intentona que, afinal, é uma
inventona, num movimento que vai conduzir ao latrocínio dito socialismo,
ao abandono, dito descolonização, bem como às violações
dos mais elementares direitos humanos que, por não serem praticadas contra
esquerdistas raramente foram denunciadas pelos meios de comunicação de massa,
nacionais ou estrangeiros. O novo poder consegue, com efeito, partir os
dentes à reacção. Ficamos assim todos a saber a lei dos mandatos de captura,
as prisões sem culpa formada e a legais justificações de tudo. Muitos
comunicados oficiais anunciam golpe que hão-de ser e Abril passa a rimar com
medo, com a repressão. Não tarda que muitos voltem a ter que ouvir a BBC às
escondidas e a ter que procurar a verdade nas entrelinhas do que os jornais iam
fingindo. Porque chega um novo chefe desgrenhado e outro esfíngico e recatado e
voltam canções de revolta para os que,
sabendo tudo, estão condenados a ficarem calados. Volta a
memória não perdida do bem do Estado e do preço que não tem a vida humana. O
temor do big brother e das máquinas automáticas registando os passos dos
suspeitos, microfilmes, fichas, computadores e as sofisticadas torturas sempre
segundo os regulamentos, a bem da nação, em nome da revolução,
porque a legalidade é agora revolucionária, teorizada pelos novos
constitucionalistas e justificada pelos antigos professores de direitos da
personalidade. Para quê saber prisões, direitos do homem. códigos penais,
processos, associações, as teorias todas do poder, os meandros do medo, com
telefones e pides, copcons, Tarrafal
Dachau, Caxias, prisões, contestações, concentrações?
Prisão de reaccionários – COPCON decide
efectuar uma vaga de prisões de reaccionários (25
de Setembro). Na rádio, começam a surgir apelos para se barrarem
acessos a Lisboa por ocasião da manifestação da maioria silenciosa.
Depois da inventona do 28 de Setembro, começa vaga de prisões políticas,
que prossegue nos dias 30, 1 e 2. Em Caxias amontoam-se cerca de mil detidos.
Utilizam-se mandatos de captura que Otelo Saraiva de Carvalho assina em branco e
que elementos de várias forças políticas executam, destacando-se Jean-Jacques
Valente, ligado ao assassinato do capitão Almeida Santos, em Caxias. Além do
COPCON, as centrais de emissão de mandatos de captura são a Comissão de Extinção
da PIDE/DGS, com o comandante Conceição e Silva, e o próprio gabinete do
Primeiro-Ministro (29 de Setembro).
Em reunião do Conselho de Estado, Spínola apresenta a
renúncia (30 de Setembro). O seu discurso foi uma oração fúnebre pelas
liberdades que confessa não poder instituir em face da hegemonia das forças que,
disse, "estão preparando novas formas de escravidão (Natália Correia).
Costa Gomes é, então, eleito Presidente da República apenas com o
voto de Pinheiro de Azevedo e a comunicação telefónica a partir de Luanda de
Rosa Coutinho (30 de Setembro).