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1972 |
Dominação e diversidade. |
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Cosmopolis |
© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006 |
Do alargamento da CEE à reeleição de Nixon – Com a
efectivação do alargamento da CEE (22 de Janeiro), passa-se da utopia à
realidade (Monnet), da aventura europeia (Moulin), enquanto se
destaca a reeleição de Richard Nixon (08 de Novembro), contra a candidatura de
Mc Govern, e o aparecimento do programa comum das esquerdas em França
(27 de Junho). O alargamento é sucessivamente posto em marcha, com os
referendos francês (24 de Abril), irlandês (10 de Maio) e dinamarquês (2 de
Outubro), bem como com a aprovação pelo parlamento britânico (13 de Julho), de
maneira que já se realiza a Cimeira de Paris, com a participação dos nove (20
de Outubro), onde se anuncia a instituição de uma União Europeia, antes de
1980. O referendo norueguês recusa entretanto a adesão de tal país nórdico (25
de Setembro). Marcante é também a criação de uma zona de comércio livre para
produtos industriais entre a CEE e a EFTA (22 de Julho). Até Brejnev já
reconhece expressamente que o Mercado Comum faz parte da situação real da
Europa ocidental (Março). Na grande política ocidental, é o tempo da
grande corrida dos ocidentais à China comunista, depois do encontro de Nixon e
Mao (21 de Fevereiro) em Pequim, depois de uma visita do presidente
norte-americano à China, durante oito dias. Assim, entre Julho e Setembro,
passam pela República Popular da China os ministros dos estrangeiros francês,
alemão, britânico e japonês. Apesar da ofensiva da Primavera dos vietcong
(Fevereiro), Nixon também vai a Moscovo (29 de Maio) assinar o tratado
Salt I (Strategic Arms Limitation Talk), pouco antes de surgir uma
ruptura do Cairo com Moscovo, com Sadat a expulsar os conselheiros soviéticos
(18 de Julho) e a nacionalizar instalações e equipamentos destes (25 de
Julho). É, aliás, nesse ano, a partir de Agosto, que o harvardiano Henry
Kissinger, conselheiro especial de Nixon desde 1969, se destaca como
negociador da retirada do Vietname e preparador das novas relações
estabelecidas com Pequim e Moscovo, pondo em prática as suas teorias
neo-realistas, de equilíbrio das potências, conforme expressara na sua
dissertação de doutoramento sobre o sistema Metternich, A World Restored,
de 1957. No ano em que onze atletas israelitas são vítimas de um ataque
terrorista em plenos Jogos Olímpicos de Munique (5 de Setembro), acabam
detidos os cinco homens que forçaram a entrada no complexo de edifícios
Watergate em Washington, onde funcionavam os escritórios do partido democratas
(17 de Junho), ponto de partida para um escândalo que há-de levar à demissão
do presidente Nixon.
Public Choice, teologia da libertação e Portugal
amordaçado – No tocante às ideias, no ano em que desaparecem tanto o
filósofo marxista Gyorgy Lucckács, como o poeta norte-americano Ezra Pound,
que havia apoiado activamente o fascismo de Mussolini, merece destaque a
emergência da teoria da public choice (Buchanan e Tullock), enquanto
outros continuam à procura do paradigma perdido (Edgar Morin) ou
denunciam a tecnodemocracia (Duverger) e o ex-ministro de Dubcek, Ota
Sik, no exílio de Basileia, procura uma terceira via, Der Dritte Weg,
com afastamento do comunismo sem adesão ao capitalismo, contra os
conservadores de ambos os lados. No âmbito da procura deste terceirismo,
importa, contudo, assinalar que o Clube de Roma publica o seu primeiro
relatório sobre os limistes do crescimento, coordenado por Donella Meadows. Já
em França, consagra-se a filosofia do desejo, com Giles Deleuze (1925-1995) e
Félix Guattari, com o primeiro tomo de Capitalisme et Schizophrénie, a
que se seguirá um segundo, em1980. Duverger, em Janus, les Deux Faces de
l’Occident, considera que a democracia liberal, depois de 1945, se
transformou numa tecnodemocracia, fundada em vastas organizações,
complexas e hierarquizadas, onde surge uma nova oligarquia que depende
mais do Estado que a da anterior ordem, ainda assente na concorrência de
pequenas unidades autónomas. Edgar Morin analisa a semelhança entre as
sociedades animais e as sociedades humanas e, retomando alguma das teses de
Teilhard de Chardin, nomeadamente da lei da complexidade crescente da evolução
das organizações. O modelo sul-americano de teologia da libertação,
enquanto teologia da revolução, organizou-se em1972 com a reunião do
Escurial em Espanha, que, em Novembro desse mesmo ano foi alvo de um ríspido
ataque do secretário-geral da Conferência Episcopal latino-americana, Alfonso
Lopez Trujillo. Vai incrementar-se o processo ao longo dos anos setenta, tanto
no plano teórico, com a recepção de uma série de ideologismo marxistas, como
as ideias de alienação, luta de classes e historicidade, enquanto se agravavam
as ditaduras sul-americanas sustentadas pela CIA. Quando Mário Soares edita no
exílio parisiense Le Portugal Bailloné, na Faculdade de Direito de
Coimbra, o jovem assistente Vital Moreira, um dos principais activistas do
marxismo lusitano, lança um importante texto universitário e doutrinário com o
enganador título de Direito Corporativo, onde vai além da hermenêutico
e semeia importantes análises políticas. Já Mário Sottomayor Cardia publica,
em Agosto, pela Seara Nova, Sobre o Antimarxismo Contestatário, uma
diatribe ortodoxamente comunista contra António José Saraiva, considerado um jdanovista ofuscado pelo neocapitalismo, datada de Fevereiro de 1971,
porque o mesmo em Maio e a Crise da Civilização Burguesa se mostrava
contrário à luta de classes e volvera-se em filósofo da subjectividade e da
ilimitada criatividade do espírito. O crítico não tardará em seguir as
ideias expressas pelo criticados, ao abandonar as teias do PCP, a que diz ter
aderido apenas por mera solidariedade.
1972
Reeleição de Nixon
Alargamento da CEE ao UK, Dinamarca e Irlanda
Programa comum de governo da esquerda em França
Encontro entre Nixon e Mao
Nasce o Bangla Desh
Criação da Serpente Monetária Europeia
Nixon visita Moscovo, onde assina o acordo SALT I
Presos líderes do grupo terrorista Baader-Meinhof
Expulsão dos conselheiros soviéticos do Egipto
Terroristas árabes do Setembro Negro cometem atentado contra atletas olímpicos em Munique
Quinta Cimeira Europeia em Paris, a primeira dos Nove
Na grande política ocidental, é o tempo da grande corrida dos ocidentais a Pequim, depois do encontro de Nixon e Mao (21 de Fevereiro de 1972) em Pequim, depois de uma visita do presidente norte-americano à China, durante oito dias. Assim, entre Julho e Setembro, visitam a República Popular da China os ministros dos estrangeiros francês, alemão, britânico e japonês. Apesar da ofensiva da Primavera dos vietcong (Fevereiro), Nixon vai a Moscovo (29 de Maio de 1972) assinar o tratado Salt I (Strategic Arms Limitation Talk), pouco antes de surgir uma ruptura do Egipto com a URSS, com Sadat a expulsar os conselheiros soviéticos (18 de Julho de 1972) e a nacionalizar instalações e equipamentos destes (25 de Julho de 1972).
É, aliás, nesse ano, a partir de Agosto, que o harvardiano Henry Kissinger, conselheiro especial de Nixon desde 1969, assume as funções de Secretário de Estado, onde se destaca como negociador da retirada do Vietname e preparador das novas relações estabelecidas com Pequim e Moscovo, pondo em prática as suas teorias neo-realistas, de equilíbrio das potências, conforme expressara na sua dissertação de doutoramento sobre o sistema Metternich, A World Restored, de 1957.
Teologia da libertação
O modelo sul-americano de teologia da libertação, enquanto teologia da revolução, organizou-se em1972 com a reunião do Escurial em Espanha. Em Novembro desse mesmo ano foi alvo de um ríspido ataque do secretário-geral da Conferência Episcopal latino-americana, Alfonso Lopez Trujillo. Vai incrementar-se o processo ao longo dos anos setenta, tanto no plano teórico, com a recepção de uma série de ideologismo marxistas, como as ideias de alienção, luta de classes e historicidade, enquanro se agravavam as ditaduras sul-americanas sustentadas pela CIA. Em1979, o novo Papa, João Paulo II, na assembleia episcopal de Puebla, lança um vigoroso ataque teórico ao movimento. Mas, nos anos oitenta começa o recuo do mesmo, tanto pela superação teórica levada a cabo pelo Papa, como pelo recuo das ditaduras sul-americanas.
Mensário1972
Janeiro
A era Waldheim
Fevereiro
Nixon em Pequim
Março
Berlinguer e o eurocomunismo
Abril
Criada a serpente monetária
Maio
Nixon em Moscovo
Junho
Prisão dos Baader-Meinhof e programa comum de esquerda em
França
Julho
Cairo contra Moscovo e afastamento de Chaban-Delmas
Agosto
Terrorismo árabe por dentro e por fora
Setembro
Atentado palestiniano contra os Jogos Olímpicos de
Munique
Outubro
A primeira cimeira dos Nove
Novembro
Vitórias eleitorais de Nixon e Brandt
Dezembro
Alemanhas de mãos dadas
Cimeira de Paris
A Cimeira de Paris, de Outubro de 1972, depois do primeiro alargamento, que, finalmente, contempla o Reino Unido, depois dos vetos gaullistas de 1963 e1967, promete desde logo a instituição de uma União Europeia antes de 1980.
Curiosamente, a fórmula assumia-se como um tertium genus diverso do modelo confederativo, defendido pelos franceses, e da inspiração mais federativa que continuava a inspirar os alemães. A palavra surgira de uma proposta de um jovem adjunto de Michel Jobert, chefe do gabinete do presidente Pompidou.
Chamava-se ele Edouard Balladur e quando foi questionado quanto ao conteúdo da mesma, respondeu com um enigmático rien, mais c'est tout d'avantage.
A quinta Cimeira Europeia, a primeira dos Nove, realizou-se em Paris, em Outubro de 1972. Aí se anuncia a criação de uma União Europeia, dentro de dez anos. Reuniu-se por iniciativa francesa. Nela se estabeleceu o princípio da CEE se apresentar face ao exterior como uma entidade distinta. Estabeleceram-se princípios gerais quanto à união económica e monetária, o lançamento de uma política regional, o desenvolvimento da política social e industrial, ceintífica, tecnológica, de ambiente e de energia, bem como a definição dos princípios de política externa relativamente aos países em vias de desenvolvimento, os países industrializados e os países da Europa do Leste. Previu-se também a criação de uma união europeia antes de 1980:
Os Estados membros reiteram o seu propósito de basear o desenvolvimento da Comunidade na democracia, na liberdade de opinião, na livre circulação de pessoas e ideias, na participação dos povos por intermédio dos seus representantes, livremente eleitos; Os Estados membros estão decididos a reforçara Comunidade, estabelecendo uma União Económica e Monetária - garantia de estabilidade e crescimento, fundamento da sua solidariedade e base indispensável do progresso social - e remediando as disparidades regionais; A expansão económica, que não é um fim em si mesma, deverá atender prioritariamente à atenuação das disparidades das condições de vida. Essa expansão deverá traduzir-se num melhoramento da qualidade e do nível de vida...A Comunidade, consciente do problema que a persistência do subdesenvolvimento no mundo levanta, afirma a sua determinação de aumentar, no quadro de uma política global para os países em vias de desenvolvimento, o sue esforço de ajuda e cooperação com os povos mais desfavorecidos;A Comunidade reafirma o seu desejo de contribuir para o desnevolviemnto das trocas internacionais. tal propósito estende-se a todos os países sem excepção...;Os Estados membros da Comunidade, no interesse das relações de boa vizinhança que devem existir entre todos os países da Europa, qualquer que seja o seu regime político, afirmam a sua determinação de prosseguir, com os países do Leste do continente, nomeadamente por ocasião da conferência sobre segurança e cooperação na Europa, a sua política de détente e de paz e o estabelecimento, sobre bases sólidas, de uma vasta cooperação económica e huamana. Os Estados membros da Comunidade, elemento motor da construção europeia, afirmam a sua intenção de transformar, antes do termo do actual decénio, o conjunto das suas relações numa União Europeia
Esta euforia resultante da ilusão do fim do gaullismo, ainda é instrumentalizada por Jean Monnet, que, no Verão de 1973, procura aproveitar a onda, propondo a instituição de um governo provisório europeu e de uma assembleia eleita por sufrágio universal.Segundo o projecto de Jean Monnet, os chefes de Estado ou de governo deveriam constituir-se em governo europeu provisório, a fim de vigiarem a aplicação do programa saído da Cimeira de Paris, de Dezembro de 1972. Para Monnet esses elementos deveriam reunir-se trimestralmente e dar instruções aos ministros que constituiriam o Conselho das Comunidades. Desta forma se evitariam novas transferências de soberania, conservando as instituições comunitárias os respectivos poderes.Contudo, o carácter provisório de tal governo apenas seria um regresso temporário aos métodos intergovernamentais a fim de superar-se uma época difícil. Neste sentido, Monnet propunha que o mesmo governo provisório adoptasse um projecto de União Europeia, com um governo europeu e uma assembleia europeia eleita por sufrágio universal.O projecto foi apresentado aos líderes britânico, alemão e francês. Heath deu o seu acordo e, embora rejeitando a expressão governo europeu, até proôs a respectiva reunião mensal. Brandt, apesar de apoiar o modelo, fez depender o seu apoio de uma iniciativa que, nesse sentido, viesse a ser tomada pelo presidente francês.
Contudo, Pompidou apenas fez saber que estava interessado. Entretanto, numa conferência de imprensa de 27 de Setembro, o mesmo Pompidou sugeriu que os mais altos responsáveis se reunissem regularmente para se desenvolver a cooperação política entre os Nove.
Em seguida, em 31 de Outubro, já depois da crise do Médio Oriente, considerando indispensável fazer prova da solidez da construção europeia bem como da sua capacidade de contribuir para regular problemas mundiais, eis que Pompidou parece seguir a sugestão de Monnet, anunciando que o governo francês propusera aos seus parceiros que fosse decidido o princípio... de encontros regulares entre apenas chefes de Estado e de governo, tendo como objectivo confrontar e harmonizar a respectiva atitude no quadro da cooperação política.
Entretanto, nada dizia sobre a futura natureza da União europeia.Se a RFA imediatamente apoia a proposta francesa, já a Comissão e os pequenos Estados da CEE apresentam algumas reticências, temendo uma espécie de restauração do Plano Fouchet.
© José Adelino Maltez, História do Presente (2006)
© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: