
Pascoaes, Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos (1879-1952) Licenciado em direito em 1901. Depois de advogar durante dez anos em Amarante e no Porto, dedica-se à lietaratura e à agricultura no solar de família, em Gatão, nos arredores de Amarante. Funda a revista A Águia em 1911. Criador do saudosismo. Insigne poeta. Manuel Antunes chamou-lhe o nosso único romântico completo. Marcado por um idealismo crítico, onde um fundo agnóstico o leva à procura do Absoluto pelo uso da imaginação e da intuição. Considera a saudade como a síntese de dois contrários que formam o génio português: o princípio naturalista ou ariano e o princípio espiritualista ou semita.
1913
O Génio Português na sua Expressão Filosófica, Poética e Religiosa
1914
A Era Lusíada
1914
Verbo Escuro
1915
Arte de Ser Português
1919
Os Poetas Lusíadas
Teixeira de Pascoaes [1877-1952]
n. 2 de Novembro de 1877
"... Eu chamei Saudosismo ao culto da alma pátria ou
da Saudade erigida em Pessoa divina e orientadora da
nossa actividade literária, artística, religiosa, filosófica e mesmo social. E a
Saudade, com a sua face de desejo e esperança, é já a
sombra do Encoberto amanhecido, dissipando o nevoeiro
da legendária manhã." [in , A Arte de Ser Português,
T. P.]
" A tristeza lusitana é a névoa duma religião, duma filosofia e dum Estado,
portanto. A nossa tristeza é uma Mulher, e essa Mulher é de origem divina e
chama-se Saudade; mas a Saudade
no seu mais alto e divino sentido, não é a saudade anedótica do Fado e de
Garrett ... A Saudade é o amor carnal espiritualizado
pela Dor, ou o amor espiritual materializado pelo desejo: é o casamento do Beijo
com a Lágrima: é Vénus e Maria numa só Mulher: é a síntese do Céu e da Terra: o
ponto onde todas as forças cósmicas se cruzam: é o centro do Universo: a alma da
Natureza dentro da alma humana e a alma do homem dentro da alma da Natureza: a
Saudade é a personalidade eterna da nossa Raça: a
fisionomia característica, o corpo original com que ela há-de aparecer entre os
outros Povos ... A Saudade é a eterna Renascença, não
realizada pelo artifício das artes, mas vivida, dia a dia, hora a hora, pelo
instinto emotivo dum povo: a Saudade é a Manhã de
Nevoeiro: a Primavera perpétua: é um estado de alma latente que amanhã será a
Consciência e Civilização Lusitana. Eis a nossa tristeza: o seu espírito são e
divino ..." [T. P., in, A Águia,
nº 8, Ano I]
"O homem representa de homem, nada mais, porque sonha, idealiza, concebe-se como
um ente superior. É só gesto, tom de voz, mímica, - um macaco esperto. Como ele
discursa à mesa dum Café! Os outros, mais da selva e da banana, ouvem-no,
embasbacados! Proclamam-no um ser sobrenatural. É agradável haver um deus da
nossa espécie. O homem representa sempre, ou quando pensa e logo existe, ou
quando entoa o cantochão, todo um com o espantalho da morte. É sempre um actor
inconsciente, ou vestido de negro eclesiástico ou envolto na púrpura pagã" [in
Cartas a uma Poetisa, T. P.]
" Admitimos que haja muito de literário na forma da poesia de Pascoaes,
como talvez de toda a poesia. Todavia, é irrecusável a evidencia de um conteúdo
terrivelmente sério, experimental, operativo, iniciático. Os seus elementos
essenciais, o poeta di-lo muitas vezes, são o silêncio e a solidão e a lua, essa
caveira astral. É algo que corresponde, em termos de iniciação maçónica, à
solenidade absoluta da «câmara escura», que Fernando Pessoa
representou na primeira parte do poema A Múmia. (...)
Pascoaes vê naquele que foi iniciado nos «mistérios« da saudade
o «ser duplo», uma espécie de «Jano Tetrafonte», tornado senhor da rebis
- a coisa dupla. No homem comum, a saudade é apenas um sentimento, mas o que
inquieta, perturba e entusiasma o poeta é verificar que há um povo, o seu, a
quem foi dado a graça sem o saber, do sentimento do centro do mundo. Tão
espontaneamente como a vista foi dada aos homens de todo o mundo. Por isso
defendeu a iniciação poética pela saudade e nela viu o carro de fogo capaz de
nos transportar de novo ao Paraíso ..." [António Telmo,
História Secreta de Portugal]
"O luar prateia o nosso berço
e a aurora doira-nos o túmulo.
Túmulo e berço, luar e aurora,
principio e fim, quem os distingue?
Mas, nesta confusão
eu adivinho
que tenho em vida, a Eternidade
e o Infinito"
[Últimos Versos, T. P.]
Projecto
CRiPE- Centro de Estudos em Relações Internacionais, Ciência Política e Estratégia.
© José Adelino
Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em:
22-04-2007 ![]()