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Paraguai
397 300 km2 e 5 milhões de habitantes. O Paraguai (que significa "rio enfeitado") é, para além da Bolívia, o único Estado encravado da América Latina.
A colonização espanhola iniciou-se em 1536 por acção de Domingo Martinez de Irala, cuja política assentava em alguns vértices definidos: demarcação das fronteiras com o Brasil através da construção de fortes; fundação de povoações; recrutamento de mão-de-obra indígena guarani para o fornecimento de comida, trabalho e soldados; e casamentos interétnicos, que conferiram ao país uma homogeneidade étnica assinalável, constituindo os mestiços cerca de 95% da população actual. Ao mesmo tempo, a partir de 1610 estabeleciam-se as missões jesuítas, expulsas em 1767 devido à independência política económica e militar com que geriam os assuntos de 100 mil índios, reunidos nas reducciones, centros de conversão religiosa, de produção agrícola e pastorícia, de manufactura e de comércio, que actuavam, igualmente, como barreiras à expansão portuguesa.
Inicialmente integrado no vice-reino do Peru, passou, a partir de 1776, para a alçada do novo vice-reino do Rio da Prata, com sede em Buenos Aires. Quando, após a ocupação do trono espanhol pelo irmão de Napoleão, José Bonaparte, a Argentina declarou a independência, em 1810, em nome igualmente do território do Paraguai, os habitantes deste último rejeitam, fazendo-o sózinhos sob a liderança dos capitães Pedro Juan Cabellero e Fugencio Yegros, em 14 de Maio de 1811. Estabalece-se uma junta governativa que, sob a influência de José Gaspar Rodriguez de Francia, propõe à Argentina a formação de uma confederação, rejeitada e transformada em aliança militar em Outubro desse ano. Perante as pretensões argentinas de domínio, forma-se um Congresso que declara formalmente a independência do Paraguai em 12 de Outubro de 1813, entregando a condução do país no ano seguinte ao condomínio de Yegros e de Francia. Em 1815 um novo Congresso reune-se para proclamar Francia o ditador supremo da república, por um período de cinco anos e, um ano depois, um novo Congresso transforma-o em ditador vitalício, ou El Supremo, que, nos 24 anos posteriores, instituiria uma série de medidas: proibição da actividade partidária; confiscação da riqueza da elite espanhola, cujos membros estavam proibidos de casar entre si; fim dos privilégios e poderes da Igreja; isolamento económico e político do país. Após a sua morte, sucede-lhe, em 1841, Carlos Antonio Lopez, que, em 1844, por decisão de um Congresso, passa a acumular poderes extremamente alargados e cuja presidência, que termina em 1862 com a sua morte, vai assentar em dois vectores: fim do isolacionismo do Paraguai e um programa de modernização das infra-estruturas e do aparelho militar. O seu filho, Francisco Solano López, que lhe sucede, utilizará esta nova capacidade de forma desastrosa para o país. A guerra civil no Uruguai constitui o pretexto para a sua declaração de guerra ao Brasil, em 1864, e à Argentina, no ano seguinte, mas, quando os uruguaios se juntam àqueles dois países para formarem a Tripla Aliança, o Paraguai sofreu uma derrota total, a qual, combinada com uma epidemia de cólera asiática, fará cair o número de habitantes de um milhão para 300 mil pessoas, das quais apenas 30 mil do sexo masculino. Perderá, além disso, território: a província de Misiones, anexada pela Argentina, passando a fronteira para o rio Paraguay; o Brasil passa a integrar uma porção, a leste; o Chaco a norte do paralelo 22 passa para o controlo boliviano.
No final desta Guerra da Tripla Aliança, em 1870, produzem-se algumas evoluções políticas, primeiro pela promulgação, ainda nesse ano, de uma Constituição liberal, e, em 1887, fundam-se os dois partidos políticos mais importantes do país: os Liberales, ou Azules, anticlericais, e os Colorados, conservadores e católicos, que assumem o poder até 1904, altura em que uma revolta dos primeiros os coloca na presidência nos 30 anos seguintes. Entre 1928-29 e 1932-35, as pretensões da Bolívia sobre o Chaco, região petrolífera habitada por grupos menonistas, conduzem o Paraguai a uma nova guerra (que é também um conflito entre as grandes empresas, a Standard Oil, do lado boliviano, e a Shell, do lado paraguaio), que desta vez vence, mantendo, através de um tratado de paz alcançado por mediação estrangeira, três quartos da região. Logo em 1936, a chamada revolta Febrerista, liderada por militares radicais, depõe o Presidente Eusebio Ayala. Em 1947, a revolta dos Liberales, perseguidos pelo Presidente, o general Higino Morínigo, causa milhares de mortos, e a deposição daquele, um ano depois, pelos Colorados. Segue-se, entre 1948 e 1954, uma série de golpes de Estado, cinco, e de Presidentes, seis, instabilidade que termina com a tomada do poder pelo general Alfredo Stroessner, com o apoio do Exército, dos Colorados e dos EUA. Reeleito sucessivamente em 1958, 1963, 1968, 1973, 1978, 1983 e 1988, o seu regime ditatorial assentou numa série de pilares: estabilização monetária, atracção de capitais estrangeiros e construção de infra-estruturas, cujos proveitos eram distribuídos entre as Forças Armadas e os empresários; fim do isolamento do país, com ênfase nas relações com o Brasil; predomínio absoluto dos Colorados e repressão das restantes manifestações políticas, incluindo a minoria indígena; censura. A partir de 1984, junta-se à Igreja, a única voz da oposição até então, a cisão interna dos Colorados em duas facções, uma favorecendo um novo mandato, findo o qual Stroessner seria sucedido pelo seu filho, e uma outra, tradicionalista, que pretendia a sua retirada em 1988, da qual sairia, em Fevereiro de 1989, o golpe de Estado que depôs o Presidente, liderado pelo general Andres Rodriguez, que prometeu a transição para a democracia. Assim, a promulgação de uma nova Constituição, em 1992, seria seguida, em 1993, pela realização de eleições presidenciais, vencidas por Juan Carlos Wasmosy, um Colorado, seguindo a orientação do Exército, que impunha a continuação daquele partido no poder, algo que se veio a repetir no escrutínio de 1997, com a presidência a ser entregue a Raul Cubas. Contudo, acusado do assassínio do vice-Presidente José Luís Argaña, em Março de 1999, foi destituído e substituído pelo Presidente do Senado, Luís Gonzalez Macchi, que, em Maio de 2000, sofre uma tentativa de golpe de Estado militar, que, porém, fracassa.
© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: