Panamá

 

75 990 km2 e 2,6 milhões de habitantes, dos quais 60% são mestiços, 12% negros, 14% brancos, 6% índios e 4% asiáticos.

A sua posição estratégica, enquanto rota de passagem do ouro e da prata do Peru, desde os tempos da Conquista, condicionou a história do país. Logo a partir do século XVI, foi objecto da cobiça dos ingleses, cuja actuação começou pelo encorajamento da pirataria, para culminar no estabelecimento de uma testa de ponte na Nicarágua - a criação, e subsequente protectorado, do reino dos índios Miskito. Após ter experimentado, entre 1850 e 1900, quarenta governos, cinquenta motins, cinco tentativas de secessão e treze intervenções dos EUA, torna-se independente em 1903, quando a Colômbia (de que era um território administrativo desde 1751), envolvida numa guerra civil entre conservadores e liberais, recusa uma proposta norte-americana para a construção de um canal interoceânico, argumentando que ela constituía um atentado à integridade do seu território. Com a frota dos EUA estacionada ao largo da costa, uma junta revolucionária panamenha proclama a independência e, em troca do precioso auxílio, a nova república atribui-lhes a concessão para a construção do Canal do Panamá, e o controlo perpétuo sobre a área, com 20 km de largura e 1432 km2, através do Tratado Hay-Bunau-Varilla.

Sonho antigo dos espanhóis, que já haviam detectado no local as condições ideais para a construção de um canal - proximidade entre dois oceanos, facto que facilitava as comunicações, e fraca sismicidade -, seria Ferdinand de Lesseps a dar os primeiros passos nesse sentido, mas, em breve, a sua companhia viria a falir, em virtude das vicissitudes inerentes ao trabalho numa zona tropical (desabamentos de terras, paludismo e febre amarela, no seu conjunto, ceifaram vinte mil vidas). Um dos seus engenheiros, Phillipe Bunau Varilla, formaria uma nova companhia, em breve comprada pelos norte-americanos. Inaugurado em Agosto de 1914, o canal se, por um lado, se tonaria na principal fonte de riqueza do país, por outro desencadeou graves desequilíbrios regionais e desencorajou o investimento nos sectores agrícola e industrial, sacrificados em proveito dos serviços, atraindo, igualmente, o contrabando de droga e o consequente branqueamento de capitais. No entanto, a soberania alienígena sobre o canal, assente num numeroso contingente militar e em bases aéreas, actuou como catalizador da unidade nacional, de que um profundo anti-americanismo constitui a pedra angular. Assim, a revisão do tratado Hay-Bunau-Varilla, em 1964, abriria caminho para o acordo arrancado a Jimmy Carter pelo general Omar Torrijos Herrera (que havia tomado o poder em 1968, juntamente com outros oficiais da Guarda Nacional) em 1977, através do qual o Panamá assegurava uma série de condições: a soberania sobre a zona do canal; a sua gestão conjunta pelos dois países; uma distribuição mais equitativa das receitas; a retirada, a partir do ano 2000, das tropas dos EUA, que, até lá, conservariam o seu direito de intervenção, em caso de necessidade.

Após a morte de Torrijos, em 1981, o ex-agente da CIA, Manuel Noriega, torna-se o novo homem forte do país, enquanto chefe da Guarda Nacional, mantendo, e mesmo reforçando, o forte nacionalismo do seu antecessor, o que lhe grangeou o apoio de Fidel Castro, e a consequente cessação da ajuda económica dos EUA. A partir de 1987, estes iniciam esforços concretos para o seu derrube, através do auxílio aos partidos da oposição, mas Noriega consegue resistir sucessivamente quer à tentativa de destituição do cargo que ocupava, feita pelo Presidente Eric Arturo Delvalle, quer a um golpe militar liderado por Leonidas Macias, pelo que os norte-americanos se vêem obrigados a recorrer à força, para o que já vinham a reforçar o seu contingente de tropas no país. Em 20 de Dezembro de 1989, os EUA lançam a operação "Justa Causa", que culmina na sua captura e posterior julgamento e condenação a quarenta anos de prisão. No plano interno, instalam na presidência Guillermo Endara, que, presumivelmente, teria ganho as eleições realizadas em Maio desse ano, que haviam sido anuladas por Noriega, e criam as condições que permitirão a introdução, em Agosto de 1994, de uma emenda constitucional que extingue o exército panamenho. Em Maio desse mesmo ano, as presidenciais são vencidas por Ernesto Perez-Valladares, líder da antiga formação de Noriega: o Partido Revolucionário Democrático.

© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: