57 - Micropolítica.
O segundo grande campo de estudo da ciência política é o do estudo da actividade política e da vida política, principalmente no domínio das chamadas organizações políticas, de que se destacam os partidos políticos, mas onde também devem incluir-se os grupos que influenciam as decisões políticas.
A literatura sobre os partidos políticos é abundante: Duverger [1951], Seurin [1953], Georges Lavau [1953 e 1989], McDonald [1955], Neumann [1956], Leiserson [1958], Battaglia [1962], Alford [1963], Jean Blondel [1963 e 1978], Lijphart [1963], Allardt [1964], Eldersveld [1964 e 1982], Sartori [1964, 1968, 1973 e 1976], Sorauf [1964], D’Amato [1965], Fisichella [1965], Faenza [1965], LaPalombara e Weiner [1966], Kirchheimer [1966], Burnham e Chambers [1967], Caboara [1967 e 1975], Epstein [1967], Lipset [1967], Rokkan [1967 e 1970], Crotty [1968], Harrig e Pinder [1969], Budge [1970, 1976, 1977, 1987 e 1994], Abbot e Ragowski [1971], Charlot [1971], Rae [1971], Krahe [1972], Sundquist [1973], Rose [1974 e 1980], Sivini [1974], Belligni [1975], Thomas [1975], Converse [1976], Crewe [1976], Farlie [1976 e 1977], Lawson [1976 e 1980], Robertson [1976 e 1987], La Mora [1977], Melluci [1977], Patterson [1977], Vega [1977], Beler e Belloni [1978], Daniel-Louis Seiler [1979, 1980, 1982, 1985, 1986 e 1993], Morodo [1979], Day e Degenhardt [1980], Janda [1980], Lenk [1980], Pasquino [1980], Pizzorno [1980], Castles [1982], Von Beyme [1982], Daalder e Mair [1983], Cotarello [1985], Pilar del Castillo [1985], Garcia-Pelayo [1986], Pierre Avril [1986], Offerlé [1987], Hearle [1987], Robertson [1987], Mény [1989], Keman [1990], Panebianco [1990], Torres del Moral [1991], Pombeni [1992], Seiler [1993], Hofferbert [1994], Klingemann [1994], Shefter [1994], Vermont [1995], e Ware [1995]. Também em Portugal, destacam-se os trabalhos de Marcelo Rebelo de Sousa [1983], Joaquim de Aguiar [1983], Maria José Stock [1986] e Colaço Antunes [1984].
Outro campo de análise tem a ver com os políticos, com os amadores e os profissionais da política, entre activistas, simpatizantes, dirigentes, burocratas e eleitos, todo esse vasto território das chamadas classes políticas, onde também há jobs for the boys. Até porque a política, como actividade simbólica e discurso, como salienta Pierre Bourdieu, tende a ser um corpo de profissionais da política, definido como detentor do monopólio de facto da produção de discursos reconhecidos como políticos. Sobre a matéria, ver, para além das obras de Bourdieu, Gaxie [1973], Julliard [1977], Fournier [1987] e Offerlé [1987], bem como Pellicani [1976] sobre os revolucionários profissionais, Blondel [1991] sobre os ministros, Grelle [1987] sobre os profissionais dos grupos de pressão, e Grémion [1979] sobre os altos funcionários.
No estudo dos grupos de interesse e dos grupos de pressão, coloca-se neste momento o problema da regulamentação da actividade dos lobbies, tanto no plano intra-estadual, como no domínio das relações internacionais, no âmbito da chamada sociedade civil internacional. Vive-se, com efeito, o abandono do anterior general good sense com a introdução de formalized rules, nomeadamente com a introdução do registo de interesses dos parlamentares e com o estabelecimento de regimes de incompatibilidades.
No mesmo sentido, estudam-se formas de controlo da pantouflage, nomeadamente com o estabelecimento de regras sobre o emprego dos membros do governo, depois destes abandonarem as funções [1].
Mas o estudo clássico dos grupos de interesse prossegue: Truman [1951], Milbrath [1963], LaPalombara [1964], Wooton [1970], Moe [1980], Berger [1981], Grelle [1987], Berry [1989], Loomis e Cigler [1991], Mundo [1992], Jeffrey Birnbaum [1992], e Petracca [1992].
Há, aliás, uma tendência para englobar os grupos de pressão no conceito mais vasto de grupos de interesse, começando a ser raros os trabalhos que utilizem como elemento central a expressão grupos de pressão - ver, contudo, Eckstein [1960], Castles [1967], Richardson [1979], e Ball e Millard [1987] - , apesar da politologia francesa persistir nesta terminologia.
A partir dos trabalhos de Piker e Stritch [1974], Schmitter [1975 e 1979], Wilensky [1976], Wiarda [1977], Panitch [1980], Cawson [1982 e 1986], Katzenstein [1984], Grant [1985], Keeler [1987], Lehmbruch [1987], Scholter [1987], Magagna [1988], Colas [1988], e Crepz [1992], começou a delinear-se a teorização do neocorporatism, isto é, de um especial processo sócio-político distinto do pluralismo, em que os grupos de interesse voltam a ser uma espécie de corpos intermediários entre a sociedade e o Estado, constituindo organizações quase monolíticas, em número limitado. Uma teorização, iniciada a partir dos Estados Unidos, que visa responder à crise da representação política, do sindicalismo e da própria cidadania activa. Contrariamente ao pluralismo, no qual as organizações são rivais, no corporatism seria o centro do aparelho de poder estadual a decretar quais são as associações representativas, independentemente da autenticidade associativa das mesmas.
No fundo, o corporatism é uma degenerescência do pluralismo e constitui um fenómeno pós-capitalista em que existe uma economia privada, mas não uma economia de mercado.
Insiste-se, sobretudo, na problemática do Welfare State: O'Connor [1973], Wilensky [1976] Flora e Heidenheimer [1981], Myles [1984], Offe [1984], Alber [1986], Ashford [1986], Ewald [1986], Burr [1987], Goodin [1988], e Gutman [1988].
O estudo das elites constitui uma constante da ciência política. Depois de, nos anos cinquenta, sessenta e setenta, dentro do esquema sociologista e comportamentalista, surgirem os trabalhos de Meisel [1957 e 1958], Benn e Peters [1959], C. Wright Mills [1956], Treves [1961], Keller [1963], Bottomore [1964], Parry [1969], Domhoff [1967, 1970, 1978 e 1990], Amstrong [1973], Giddens e Stanworth [1974], Austin [1975], Freund [1976], Putnam [1976], Lebedoff [1981], e Marger [1987], eis que, mais recentemente, se prossegue essa pesquisa numa perspectiva mais globalista, com destaque para os trabalhos de Pierre Birnbaum [1977 e 1985]. Também entre nós, António Marques Bessa, na sua dissertação de doutoramento de 1993, Quem Governa?, e, posteriormente, n’A Arte de Governar, introduziu o tema no universo da politologia portuguesa.
O estudo das elites abrange não apenas a matéria teórica, como a investigação empírica sobre as elites administrativas, centrais e locais, os dirigentes e activistas políticos e os parlamentares.
Destaca-se também o estudo dos modelos representativos e dos sistemas eleitorais, bem como das eleições, da opinião pública e do comportamento eleitoral, nomeadamente a influência do factor económico nas eleições [2].
Sobre a representação política, são de interesse os trabalhos de Ross [1955], Birch [1962 e 1964], Sartori [1962], Martinez Vasques [1966], Pitkin [1967], Chapman e Pennock [1968], Fraga Iribarne [1971], Crewe, Budge e Farlie [1976], Eulau e Wahlke [1978], Guinier [1995], Hayard [1995] e Philipps [1995].
Sobre eleições, sistemas e processos eleitorais, comportamento eleitoral e votação, devem ser consultadas as obras de Duverger [1950], Berelson, Lazarsfeld e McPhee [1954], Ross [1955], Blondel [1963], Campbell, Converse, Miller e Stokes [1966], Key [1966], Lipset e Rokkan [1967], Lancelot [1968], Milnar [1969], Cotteret e Emeri [1970], Lakeman [1970], Nimmo [1970], Rokkan [1970], Rosecrance [1970], Pattanaik [1971], Rae [1971], Braud [1973], Alexander [1976], Budge, Crewe e Farlie [1976 e 1977], Estebán [1977], Johnston e Taylor [1977], Cayrol, Thoverin e Blumler [1978], Gudgin e Taylor [1978], Rose [1979], Pierce e Sullivan [1980], Patterson [1980], Rouquié, Linz e Hermet [1980], Nohlen [1981], Enelow e Hinich [1984], Budge e Farlie [1983], Finer [1980], Hearl, Budge e Robertson [1987], Garrigou [1992], Martin [1994], e Perrineau [1995].
O fenómeno da comunicação política é objecto de uma particular atenção, nomeadamente quanto ao papel dos meios de comunicação social e quanto às reflexões sobre a propaganda e a persuasão políticas. Várias são as pistas de estudo: o da retórica política; a influência dos grandes talk shows; a relação entre os opinion makers e os editorialistas; o papel do cinema; os novos modelos de comunicação electrónica, etc..
Contudo, a questão da comunicação tem sobretudo a ver com a necessidade da redescoberta de um novo espaço público de debate democrático, dado que a procura do representante e a emissão da opinião são hoje dependentes desses intermediários que constituem o chamado quarto poder. Se alguns ainda se iludem quanto à circunstância do jornalista e do comunicador visível ou audível se assumirem como seres autónomos, quem analisar, com realismo, os fenómenos em causa depressa descobre a rede invisível que os coordena, condiciona, censura ou controla. As heróicas campanhas pela liberdade de expressão contra as censuras institucionais e as leis da rolha parecem hoje ultrapassadas pelas circunstâncias da aldeia global e pelos negócios, mais caseiros, dos novos oligopólios que nenhuma lei contra a concorrência desleal ou de controlo das concentrações de empresas conseguiu tornear, ao mesmo tempo que uma nova e subtil forma de censura emerge através da ditadura das medições dos consumidores.
Obras como as de Tchakhotine [1939], Katz [1954], Schramm [1954], Facchi [1960], Ellul [1962 e 1976], Brown [1963], Nimmo [1970, 1974, 1980, 1981 e 1990], Antoine [1972], Cazeneuve [1972 e 1986], Fagen [1973], Domenach [1975], Rosenblum [1979], Speier, Lerner e Lasswell [1980], Patterson [1980], Saussez [1985 e 1990], Cayrol [1986], Maarek [1986 e 1992], Mattelart [1986], Abramson [1988], Entman [1989], Proulx e Breton [1989], Nimmo e Swanson [1990], Balle [1992], Hartley [1992], Parenti [1992], Gerstlé [1992], Maltese [1992], Albouy [1994], e Altschull [1995] são de manuseio obrigatório para o correcto entendimento do fenómeno.
A aldeia global da comunicação levou a que a forma preponderasse sobre a substância, que o continente se tornasse bem mais importante que o conteúdo, pelo que se tornou mais fácil a descoberta sobre o rei ir nu, com o consequente desencanto, a partir do momento em que se descobre a falta de autenticidade da imagem.
Fala-se no aparecimento de uma comunidade electrónica (Abramson, 1988), de uma democracia catódica, geradoras de uma nova ideologia. O público transforma-se num Estado-Espectáculo, numa teatrocracia, num Estado-Sedutor, surgindo uma teledemocracia (Arterton, 1987), um videopoder.
Recentemente, Régis Debray, em L’État Séducteur. Les Révolutions Médiologiques du Pouvoir [1993], propõe mesmo uma nova disciplina que não seria a moral nem a política, mas antes a mediologia, com a missão de explorar as vias e os meios da eficácia simbólica, decompondo-a na revolução fotográfica, na passagem do Estado do escrito ao Estado do écran e nas aventuras do índice.
Na mesma linha, são fundamentais os estudos sobre a opinião pública, principalmente o entendimento dos fenómenos das sondagens e do controlo das audiências. Aliás, a democracia representativa tende a ser desafiada pelas degenerescências de certa sondajocracia tão maligna quanto as experiências de democracia directa vanguardista. A mistura do pior dos populismo e das demagogias, com as eventuais manipulações da opinião pública pode conduzir, aliás, a novas formas de inquisitorialismo, promovidas pela minoria activa de uma intelligentzia geradora de um big brother bem mais amordaçante que anteriores formas de lavagem ao cérebro promovidas pelos bacilos revolucionários e pelos intelectuais orgânicos.
Sobre a opinião pública, importa reter as obras de Truman [1951], Katz [1954], Key [1961], Sauvy [1977], Padioleau [1981], Nieburg [1984], Margolis e Mauser [1989], Champagne [1990], Milburn [1991], e Fishkin [1995].
São vários os acesso da Internet sobre esta matéria. Salientam-se: Lijphart Election Archive : colecção de resultados eleitorais por país (http://ssdc.ucsd.edu/lij/); eleições e sistemas eleitorais, por Richard Kimber (http://www.keele.ac.uk/depts/po/election.html); partidos políticos no mundo por Benjamin Butter (http://www.luna.nl/~benne/politics/parties.); partidos políticos, por Richard Kimber, ligação às home pages (http://www.keele.ac.uk/depts/po/parties.html); partidos políticos europeus (http://www.ping.be/~ping0656/).
[1] Kenneth Janda, «Comparative Political Parties Research and Theory», in Ada Finifter, Political Science. The State of the Discipline II, Washington, APSA, 1993, pp. 163-191. Russell J. Dalton e Martin P. Wattenberg, «The Not So Simple Act of Voting», idem, pp. 193-218.
[2] Para uma visão global da actual ciência política, aconselha-se o recurso à Internet, nomeadamente ao The Political Scientist’s Guide to the Internet (http://www.trincoll.edu/pols/home.html), onde constam as bibliotecas, os departamentos e os centros de investigação, bem como os livros e os documentos que estão on-line. Para os livros de ciência política que estão disponíveis, ver (http://www.cs.cmUniversityedu/Web/books.html).