A PROCURA DA CIÊNCIA POLÍTICA
2 - Ambiente internacional.
Nos últimos três anos o ambiente internacional continuou a alterar-se de forma radical, comprimindo de maneira evidente a margem de manobra dos factores internos de poder, de tal maneira que o sistema político quase deixou de ser uma consequência da soberania e, no plano interno, corre o risco de tornar-se mero subsistema face à economia e à sociedade. Diante do desafio de tal mundialização, a reflexão sobre o fenómeno político, libertando-se daqueles quadros que pareciam duradouros, foi obrigada a ter umas saudades do futuro, dado que, para conseguir entender o nascimento do amanhã, teve de voltar a peregrinar pelas origens, a fim de se ultrapassar certa ditadura de um pretenso processo histórico que acompanhava o gnosticismo da modernidade.
Com a queda do muro de Berlim em 1989 e o subsequente colapso do sovietismo, ruiu a velha ordem mundial estabelecida pelos vencedores da Segunda Guerra Mundial e que viveu, durante quase quatro décadas, segundo o ritmo da bipolarização surgida da guerra fria.
Contudo, com a emergência da questão do Golfo Pérsico, em 1990, que levou à operação Tempestade no Deserto do ano seguinte, verificámos que, afinal, não havíamos atingido o gnóstico fim da história, mas que vivíamos o regresso da história que, muitas vezes, se traduzia num retorno aos tempos do fim da Grande Guerra.
Esses acontecimentos do fim da década de oitenta, desde a ascensão de Gorbatchov à queda do muro de Berlim com a imediata implosão da URSS, foram até menos causa do que consequência de algo que tem sido qualificado como revolução global, e que o Professor Adriano Moreira, há mais de duas décadas, na senda de Teilhard de Chardin, teorizou como a lei da complexidade crescente nas relações internacionais, pela multiplicação das dependências e interdependências que é acompanhada por uma também multiplicação quantitativa e qualitativa dos centros de decisão, movimento de contrários que geraria novas formas políticas - os grandes espaços -, bem como órgãos supranacionais de diálogo, de cooperação e decisão. Numa convergência que seria acompanhada por uma divergência exigindo uma nova unidade, assistir-se-ia tanto a uma planetização dos fenómenos políticos, com a consequente marcha para a unidade do mundo, como a uma dispersão, a uma fragmentação, a uma multiplicação quantitativa e qualitiva dos centros de decisão, nomeadamente com a progressão quase geométrica do número dos Estados e dos organismos internacionais.
Essa aparente contradição (por um lado, a crescente mundialização, e por outro, as exigências opostas da diversificação que, por exemplo, faz com que, no tempo dos grandes espaços, se viva em simultâneo a idade dos nacionalismos) constitui, aliás, o mais evidente sinal do complexo. Porque é complexo tudo o que é mistura de contrários. E porque do complexo só poderemos sair, não pela vitória de um pólo sobre o outro, através da antítese vitoriosa sobre a tese, a que se seguiria uma síntese, mas antes pela harmonia reconciliadora dos contrários.
A superpotência URSS não era suficientemente poderosa para ser autárcica. Podia ter SS-20, mas deixou que um simples Cessna pilotado por um teenager alemão aterrasse na Praça Vermelha. Podia ter iniciado com o Sputnik e, depois, com Gagarine, a era da astronáutica, mas não sabia produzir transístores nem máquinas fotocopiadoras. Era suficientemente poderosa para amedrontar o mundo com as bombas termonucleares, mas não conseguiu domar os mujaheddin no Afeganistão nem consegue ainda hoje controlar os chechenos, tal como os norte-americanos não conseguiram aguentar o voluntarismo pertinaz dos guerrilheiros vietcong.
O primeiro dos sinais de convergência no sentido do mundialismo foi, sem dúvida, a grande revolução técnico-científica. Uma revolução científica que já não é apenas a mera continuidade da Revolução Industrial do século XIX, isto é, a mera exploração da massa pela energia, ou a exploração da natureza pelo homem, mas antes uma revolução das tecnologias da informação, que conhece a lei da entropia, descoberta por Rudolf Clausius nos finais do século XIX, a existência de uma nova grandeza variável da energia... a quantidade de energia que, sendo gasta numa mudança, é irrecuperável pelo sistema e fica para sempre na zona do desperdício no balanço da energia do Universo.
Basta recordarmos, em termos de teorias estratégicas, que as tradicionais contraditas entre os defensores do poder terrestre e do poder marítimo foram superadas pelo aparecimento do poder aéreo e, mais recentemente, com a chamada Iniciativa de Defesa Estratégica, ou guerra das estrelas, pelo anúncio do poder supraterrestre, supramarítimo e supra-atmosférico, que deixaram de ser um exclusivo da ficção científica.
Outra das fundamentais vertentes da revolução global é a revolução dos mercados. Primeiro, com o reconhecimento do homem como animal de trocas, de mercadorias e de serviços, aquela revolução do doux commerce, na qual muitos profetizaram a inevitabilidade das armas da paz se substituírem às armas da guerra. Aquela revolução pacífica que leva muitos a citarem os exemplos da Alemanha e do Japão que, depois de derrotados e devastados há cinquenta anos, se assumem hoje como os novos senhores do mundo, sem terem de investir em defesa e segurança. Podem não ser superpotências militares, não têm assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, mas fazem parte do Grupo dos Sete.
Contudo, a revolução dos mercados assume hoje novo sentido com a emergência da chamada geofinança, dessa network structure dos fluxos financeiros diários que passam pelas bolsas de valores de todo o mundo, e onde, minuto a minuto, podem pôr-se em causa empresas, moedas, países ou grandes espaços. Um quase esotérico sector, onde apenas parecem saber operar dez grandes holdings de peritos capazes de dominarem os segredos desse processo, esses novos poderes que, segundo Bouthros Bouthros-Ghali, transcendem as estruturas estaduais, gerando um poder mundial que escapa aos Estados.
Basta salientar que os três primeiros fundos de pensões norte-americanos - a Fidelity Investments, o Vanguard Group e o Capital & Research & Management - controlam dez vezes mais dólares que os conseguidos em Dezembro de 1994 pelo Departamento do Tesouro norte-americano, o Banco Mundial e o FMI para ajudarem a sustentar o valor da moeda mexicana.
O mais importante dos novos poderes passa, assim, por esse fluxo da geofinança que tem as características do imediatismo, da desmaterialização, da permanência e do planetário, ao mesmo tempo que ressurgem formas de inconsciente colectivo, marcadas pelo revivalismo dos rumores, dos receios e da própria fé das bruxarias, típica das sociedades de casino, dessa nova religião dos mercados que tem como missionários militantes os descendentes dos yuppies. A figura dos corretores aventureiros chega mesmo a substituir a dos garimpeiros e dos achadores de volfrâmio, e a realidade quase se transforma numa ficção folhetinesca de telenovela, aproximando-se de muitos dos meandros do romance de Dona Branca.
Podem reunir-se, sob os holofotes televisivos, os líderes das superpotências ou dos G-7, bem como as cimeiras da NATO ou da OSCE, mas não se conhece o rosto dos mestres do mercado, desses novos predadores para quem sentidos como os da justiça e da honra parecem não contar.
A este respeito, importa sublinhar que revolução dos mercados foi, sobretudo, o processo de livre circulação dos capitais, precedido pelo processo da desregulação e das privatizações.
A economia desmaterializou-se. O poder deixou de residir nos elementos materiais, nos factores de produção da teoria marxista, como eram a terra, os recursos naturais e as máquinas, e passou a assentar em factores imateriais, como o conhecimento científico, a alta tecnologia, a informação, a comunicação e as finanças.
O poder transformou-se numa rede de poderes, deixou de ser uma coisa, um patrimonium, um ter, e passou a ser uma relação, uma rede de muitos micropoderes, em que os novos mestres predadores e conquistadores já não são os detentores dos factores de produção nem os organizadores da era dos managers, mas sim os efectivos manipuladores da rede que conseguem por todos os meios a necessária inside information.
Todos este novos grupos escapam a anteriores formas de representação e de legitimação política e social, e desprezam o bem mais precioso de qualquer democracia: aquela informação que permite a consolidação de uma opinião crítica. Aliás, os novos poderes têm com eles legiões de aliados e colaboracionistas, desde os quadros da tecnociência que trabalham para incorporar o avanço da técnica nos novos produtos e serviços - os quais estão a tornar caduco o tradicional conceito de Universidade, dado configurar-se como um grupo cada vez mais cosmopolita que tende a depender mais das multinacionais do que dos subsídios estaduais, das tecnoburocracias dos Estados e das organizações internacionais - , até porque os gestores de alto nível tendem a ser educados nas mesmas escolas e nas mesmas universidades que mantêm a educação permanente, passando pelos criadores de símbolos, nesse conúbio entre os universitários e os opinion makers paralelo à própria entrada dos grandes media no sistema dominante.
Já não temos as sete irmãs das multinacionais petrolíferas, das grandes famílias que dominavam o tempo das trocas de mercadorias do auge da revolução industrial. Passámos para a sociedade da informação: para uma informação que não se consome, como acontecia com o petróleo ou a alimentação, mas que se cria pelo uso e se reproduz pelo abuso.
Assistimos assim a uma revolução da informação que se traduz na sua uniformização e ubiquidade, que transformou todo o mundo numa aldeia global onde vale mais a forma do que a substância, o continente do que o conteúdo.
O homem massa passou, de simples auditor, a informe audiência, e grupos mais poderosos que os próprios Estados tratam de manipular aquilo que era o bem mais precioso da isegoria.
Se há transmissão de dados à velocidade da luz, se se banalizaram os satélites de telecomunicações, se as auto-estradas da informação alcançam o mais pequeno computador doméstico, eis que temos apenas duas cadeias planetárias de televisão - a Cable News Network (CNN) de Ted Turner e a Music Television (MTV) - que alteram os costumes, as culturas, as ideias e os debates. Temos, sobretudo, duas agências de informação audiovisual - a Worldwide Television News (WTN) e a Visnews - que todos os telejornais do mundo reproduzem diariamente.
Outra das revoluções globais tem a ver com a revolução demográfica, com o aumento da população do mundo e com a alteração quantitativa na proporção existente entre grupos étnicos, falando-se a propósito nas bombas demográficas do Sul relativamente ao decréscimo numérico da população branca do Hemisfério Norte. Com efeito, a população mundial que se manteve estável dos tempos de Jesus Cristo ao ano mil, multiplicou-se por vinte neste último milénio. Mas, nestes últimos cinquenta anos, o multiplicador entrou em ritmo quase febril: se em 1939 havia 2.195 milhões de homens, esse número passou para 4.453 milhões em 1980 e para 4.842 em 1985, prevendo-se que atinja os 6.127 milhões no ano 2000 e os 8.177 milhões em 2025.
Actualmente em cada cem homens há 22 chineses, 20 nativos do subcontinente indiano, 10,2 europeus, 5,7 da antiga URSS, 5,5 da América do Norte, 11,4 africanos, 8,4 da América Latina. Mas se atendermos à distribuição da riqueza, verificaremos que quatro quintos da riqueza mundial cabe a uma sétima parte da população do mundo, contribuindo-se assim para a destruição de outro dos valores básicos de qualquer comunidade, a isonomia.
A mistura destas revoluções podia dar a esperança dos novos poderes, dos guerreiros do conhecimento, dos analistas de símbolos e soldados de software, com o apelo aos recursos humanos e à educação como paixão ou prioridade das prioridades. Mesmo os novos media, como o telefone-satélite e os microcomputadores, poderiam apelar ao small is beautiful. E o doce comércio parecia até poder submergir a violência da guerra. Contudo, como assinala o Professor Adriano Moreira, o tempo acelerado das mudanças políticas subsequentes ao processo da revolução global não foi acompanhado por uma paralela revolução cultural. Porque se as revoluções parcelares se fazem no curto prazo, já as revoluções culturais e morais exigem sempre um tempo demorado, um médio e um longo prazo.