Respublica     Repertório Português de Ciência Política         Edição electrónica 2004

Racismo Concepção segundo a qual existem raças superiores e raças inferiores e que estas devem submeter-se àquelas, pelos que as superiores devem evitar mistura-se com as outras, para que se mantenham puras, implicando também uma melhoria das mesmas. Está ligado ao eugenismo. O racismo teórico contemporâneo começa com Arthur de Gobineau (1816‑1882), antigo chefe de gabinete de Tocqueville, quando este foi ministro dos negócios estrangeiros francês, que em Essai sur l'Inegalité des races humaines, publicado entre 1853 e 1855, defende que a raça branca e, dentro desta, a raça ariana devem ser as raças  superiores e dominadoras. Uma opinião partilhada por outros autores da época como Victor Courtet (1813‑1867) em  La Science Politique fondée sur la Science de l'Homme, ou l'Étude des races Humaines sous le Rapport Philosophique,  Historique et Social, e Vacher de Lapouge. Este último, professor em Montpellier, em L'Aryen et son Rôle Social, de 1899, chega mesmo a propôr a criação de uma nova ciência, a antropossociologia, baseada na luta darwiniana pela sobrevivência da espécie. Para ele, as raças dolicocéfalas dos louros devem ser senhoras e dominadoras das raças braquicéfalas, defendendo, para o efeito, a prática da selecção biológica. Este ambiente vai ser também assumido por Houston Stewart Chamberlain (1855‑1929), um inglês naturalizado alemão, genro de Richard Wagner, que em  As raízes do Século XX, de 1899, vem considerar que os teutões (os celtas, os eslavos e os germanos) é que caldearam as raízes gregas, romana e judaica da civilização ocidental, chegando a defender a intervenção do Estado no processo de desenvolvimento biológico da raça dos senhores. Este cientismo positivista, misturado com o romantismo político, desagua nas teses assumidas por Adolf Hitler em Mein Kampf constituindo o eixo fundamental do nacional-socialismo que sobe ao poder na Alemanha em 1933. Um caso especial de racismo é o processo do anti-semitismo. Racista são também as teses do colonialismo e do apartheid. Não menos racistas são alguns dos movimentos políticos anticolonialistas desde a negritude às teses de Frantz Fanon. Em Portugal, o racismo tem especial desenvolvimento nos anos trinta, a partir do Acto Colonial e do Estatuto do Indigenato. Em termos racistas são também as leis da nacionalidades posteriores a 1974. A chamada discriminação racial. A segregação racial norte-americana. Os mestiços.

Mesmo os racistas de hoje ainda invocam a lei da selecção natural de Charles Darwin. Consideram que a causa de todos os nossos problemas actuais é a ideia liberal de que o Homem pode desobedecer a leis naturais.

 

Marcante em Arthur de Gobineau e em Hitler. Configura o chamado bio-historicismo de Friedrich List. Influencia a perspectiva ideológica da teoria das elites. Reaparece em força nas mais recentes teses da sociobiologia e da etologia que marcam a nova direita. Isto é, está na base de teses anarquistas, marxistas e liberais, desenvolvendo o racismo e o estrategismo, quando promove o cientismo, acirra o positivismo e contribui para a emergência de uma sociologia ideológica, principalmente na viragem do século XIX para o século XX. Gera, inclusive, a teoria capitalista do homem de sucesso. Um dos primeiros críticos do darwinismo é T H. Huxley.

 




© José Adelino Maltez. Todos os direitos reservados. Última revisão em: