Respublica Repertório Português de Ciência Política Edição electrónica 2004 |

Ricoeur, Paul (n. 1913)
Estuda em Rennes e na Sorbonne. Obtém em l935 a agrégation. Mobilizado em l939, é feito prisioneiro e aí começa a traduzir com Mikel Dufrenne Ideen I de Husserl. De l945 a l948 ensina no Collège Cévenol di Chambon-sur-Lignon, e successivamente Filosofia moral em Etrasburgo, onde sucede a Jean Hyppolite. A partir de 1956 é professor de História da Filosofia na Sorbonne. Amigo de Emmanuel Mounier, colabora na revista «Esprit». De 1966 a 1970 ensina na nova Universidade de Nanterre, da qual se torna reitor entre Março de 1969 e Março de 1970. Para para a Universidade de Chicago, (Divinity School). A convite da UNESCO faz em 1978 um inquérito sobre a filosofia no mundo.
Ideologia e utopia
Podemos atingir as raias da ideologia e da utopia, apesar das roupagens vocabulares aparentemente anti-ideológicas e anti-utópicas. Da ideologia entendida como "versão do imaginário social que tende para a conservação, a justificação e a idealização da instituição existente" e da utopia que "tende para a subversão do que funciona em proveito de novas e outras formas de poder ", conforme as palavras de Paul Ricoeur.
Hermenêutica
concebe a filosofia, como uma "teoria geral do político", que tem a política como fim. acção comunicativa, o seu caput scholae, há também que salientar o papel da hermenêutica de Gadamer e Ricoeur
Estado
Muito neo-hegelianamente fala no político como uma "totalidade envolvente" dos costumes humanos exercendo uma função hegemónica sobre as consciências políticas. O Estado é um "querer público central de vontade", pelo que "não há problema que seja politicamente neutro, isto é, sem incidência na vida do Estado". Enquanto isto, a política visa congregar os interesses e os objectivos da existência humana; é no político que se joga o destino de um conjunto geo-histórico: cidade, nação, grupo de povos.
Os valores
A mesma posição é assumida pela hermenêutica de Paul Ricoeur e de Luigi Pareyson, para quem os valores têm que ser históricos e não ideais supra-históricos. Ricoeur salienta que não pode haver política sem referência a uma "cultura", a um "horizonte de valores", a um "projecto de sociedade", pelo que os que pretendem reduzir a política a uma simples ciência ou a uma mera técnica praticam uma impostura intelectual e um engano metafísico.
Contra o exagero sistémico
Como salienta Paul Ricoeur, depois do extremo cartesiano do exagero do sujeito, caimos na "eliminação excessiva do sujeito na teoria dos sistemas, onde, porque é importante que o sistema funcione, criando-se e transformando-se a si mesmo, pelo que o sujeito desaparece completamente". Paul Ricoeur salienta, na senda aristotélica, que toda a acção tem três elementos: o psicológico, o lógico(logos), o axiológico e o normativo (phronesis). Contrariamente ao kantismo, não considera que a razão prática se modele pela razão especulativa, negando a separação metódica entre o a priori e a empiricidade.
A liberdade
Eentende a liberdade como uma tarefa, como uma exigência de efectividade, de esforço do ser, de compromisso, de realização, considerando que em Kant se deu um curto-circuito entre a liberdade e a lei. Para ele o sollen não pode ser concebido como uma lei exterior relativamente à liberdade, o que se traduz na divisão do homem com ele próprio. Haveria um fundamento da liberdade anterior à própria lei moral e que passaria pelo conceito de pessoa e de respeito e que se traduziria em alteridade. Considera a hermenêutica como prática de desmistificação, compreensão e interpretação dos símbolos. Daí que a lógica da praxis esteja a um nível antropológico e psicológico, diverso tanto do pensamento especulativo como do nível irracional da paixão. Com efeito toda esta hermenêutica, ao ultrapassar o formalismo kantiano, recupera, de Hegel, o espírito objectivo e de Aristóteles, a filosofia prática.
"a política tem uma vocação fundamental e capacidade para reagrupar os interesses e as tarefas da existência humana; é no poder político que se noue o destino de um conjunto geo-histórico:cidade, nação, grupo de povos". Neste sentido, considera que o labirinto do político é o lugar por excelência da ambiguidade do nosso tempo
Razão, crença e mito
"toda a razão tem um horizonte sobredeterminado pela crença", havendo "um ponto, onde o racional comunica com o mítico", donde deriva toda "uma constituição simbólica do laço social". Com efeito, "toda a ética que se dirige à vontade para a lançar no agir deve ser subordinada a uma poética que abre novas dimensões à nossa imaginação" Na verdade, sempre que procuramos a jurisdicização de conceitos como o de nação podemos atingir as figuras da falsa consciência, desde a ideologia, entendida como "a versão do imaginário social que tende para a conservação, a justificação e a idealização da instituição existente", à utopia, que "tende para a subversão do que funciona em proveito de novas e outras formas de poder", conforme assinala
Paul Ricoeur o Ocidente é um produto da Idade Média dos séculos XII e XIII, autêntico "lugar de criação", dado que "foi nesta época que nasceram todas as grandes instituições:a universidade, a moeda, o comércio, o Estado, a vida comercial". As posteriores crises, da Renascença, da Reforma, do Iluminismo e das grandes revoluções do século XIX não passariam, aliás, de meras "crises de crescimento".
Defesa do institucionalismo
Ricoeur também adopta o institucionalismo, dado que este difere da hipostasiação do "espírito objectivo", que, como em Hegel, leva a absolutizar o conceito de Estado, dissolvendo a riqueza das relações inter-subjectivas e a autonomia do sujeito. Para ele as instituições são o húmus onde estão solidificados os valores e nas quais se pode exercer a alteridade, a mediação entre as liberdades. São estruturas de inter-acção que não são eticamente neutras. E é a base institucional, a ordem que assegura a tranquilidade e protege a intimidade, dado que só uma parte íntima do ser humano pode ser totalmente pessoalizada.
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Histoire et VéritéParis, Éditions du Seuil, 1955. Cfr. trad. port. de F. A. Ribeiro, História e Verdade, Rio de Janeiro, Editora Forense, 1968). Destacam-se os caps. «Estado e Violência», pp. 237 segs., e «Civilização Universal e Culturas Nacionais», pp. 277 segs..
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Finité et Culpabilité2 vols., I. L'Homme Faillible, II La ique du Mal, Paris, Aubier, 1960.
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Eléments pour une ÉthiqueParis, 1962.
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De l’Interpretation. Essai sur FreudParis, Le Seuil, 1965.
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Le Conflit des Intérpretations. Essais d’HerméneutiqueParis, Éditions du Seuil, 1969.
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La Métaphore ViveParis, Éditions du Seuil, 1975.
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Tendances Principales de la Recherche dans les Sciences HumainesParis, UNESCO, 1978.
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Lectures I - Autour du PolitiqueParis, Le Seuil, 1991.
© José Adelino Maltez. Todos os direitos reservados. Cópias autorizadas, desde que indicada a proveniência: Página profissional de José Adelino Maltez ( http://maltez.info). Última revisão em: 11-01-2004