Respublica     Repertório Português de Ciência Política         Edição electrónica 2004

Radicais

A expressão tem servido para qualificar alguns partidos e movimentos políticos. Tem origem no latim radix, radicis, raiz. Começa a usar-se nos finais do século XVIII em França e na Inglaterra, abrangendo  todos os que, contra o ancien régime, propunham uma reforma absoluta da política e da sociedade. Passou a significar idêntica postura face a todo o situacionismo, ao status quo.

O modelo inglês

Na Inglaterra domina um radicalismo filosófico que inspira as reformas de 1832 e 1834 e a axpressão qualifica aqueles filósofos que pretendem transformar as ideias liberais em leis de reforma, abrangendo a chamada esquerda liberal inspirada por Bentham e representada por James Mill, John Stuart Mill, David Ricardo e John Austin.

O modelo francês

Segundo a tradição francesa, a partir da República Radical de 1899, radical traduz a ideia do radicalmente republicano, não no sentido jacobino, mas, pelo contrário, visando a promoção do pluralismo, da tolerância e do compromisso. O modelo, protagonizado por Édouard Herriot, em nome do francês médio e do homme quelconque, foi especialmente retomado nos anos setenta do século XX por Jean-Jacques Servan-Schreiber que em Janeiro de 1970 lança um novo Manifesto Radical.

Sentido contestatário

Já em sentido anglo-saxónico, o radicalismo tem, hoje, o sentido contestatário, cobrindo movimentos que pretendem uma alteração da ordem sócio-política ou que se colocam na margem do sistema, reassumindo-se, neste sentido, o chamado radicalismo filosófico de Bentham e dos utilitaristas. Em Itália, nos anos oitenta deste século, passou a usar-se esta conotação, apesar do partido radical acabar por integrar o movimento de direita. A expressão pode também significar um movimento extremista de direita ou de esquerda.

 

Também entre nós a expressão não é normalmente usada com a conotação francesa de centro-esquerda, dado ter quase sempre como sinónimo a de extremismo ou de irredentismo, até pela história dos grupos que a invocaram. Radicais começaram por ser os liberais opositores ao sistuacionismo chamorro de 1834-1836 e, depois de 9 de Setembro de 1836, os opositores à moderação de Sá da Bandeira e Passos Manuel, também ditos exaltados e irracionais. Como radical também se qualificou um pequeno partido republicano da esquerda que teve algumas ligações ao autubrismo. Isto é, de acordo com a tradição portuguesa, a palavra marca os grupos da extrema-esquerda admitidos pelo sistema. Neste sentido, radical é aquele que pretende erradicar, que pretende arrancar pela raiz tudo aquilo que existe e não ir à raiz para regenerar e reavivar o sentido do todo.

 

 

Entre nós, começam por qualificar-se como radicais os opositores aos liberais moderados que sustentam o regime dos amigos de D. Pedro entre 1834 e 1836. Oposição dos radicais com Saldanha, Passos Manuel (deputado pelo Minho), Silva Sanches, Passos José, Atouguia e Vieira de Castro. Rodrigo Pinto Pizarro, opositor eleito por Trás os Montes que logo foi preso. que amalgamava avançados, vintistas e saldanhistas da emigração Os opositores radicais não se pouparam nos epítetos demolidores, como o conde da Taipa, D. Gastão Pereira de Sande, que chamou aos governamentais uma camarilha feita para devorar o País à sombra de uma criança.

Como se refere em Hontem, hoje e amanhã visto pelo direito, surgiu uma nova nomenclatura. Até porque tirar os bens aos nobres e ao clero reputava-se um acto de justiça, mas não era considerado escândalo o acumularem ofícios aqueles que apregoavam justiça e reforma

tumultos radicais de Lisboa, ocorridos em 28 de Março de 1835, na sequência da morte de D. Augusto, o jovem marido da rainha De 27 de Maio de 1835 a 18 de Novembro desse mesmo ano participam num governo presidido por Saldanha, através de Francisco António de Campos.

radicais foram então os representantes do chamado partido das classes industriosas, conforme a qualificação de Vasco Pulido Valente. Nessa altura, a burguesia dos negócios e da indústria assumiu-se como entidade revolucionária face aos novos terratenentes baronais, compradores dos bens nacionais e tratou de defender pautas aduaneiras proteccionistas.

São eles que constituem o adubo da revolução de 9 de Setembro de 1836. A partir de então, dá-se uma divisão entre os setembristas moderados, como Passos Manuel e Sá da Bandeira, e os setembristas radicais liderados pelos clubes maçónicos e pelos arsenalistas, que se aliam aos membros da maçonaria do Sul como José Alexandre de Campos, João Gualberto Pina Cabral. Entre os deputados radicais eleitos em 1836, José Estevão, José Liberato, leonel Tavares Cabral e Costa cabral. Grupo de José Alexandre de campos. O centro moderado vê também destacar-se um grupo de setembristas ordeiros, que se vão aliar aos cartistas, enquanto surgem vários golpes radicais em 1838, como os de 4 de Março, 9 de Março, 13 de Março e 14 de Junho. Passam então a ser também conhecidos como irracionais. Nas eleições de 1838 aparecem sob a forma de Associação Cívica ou de Associação Eleitoral Setembrista. com José Estevão, António Rodrigues Sampaio, Francisco António de Campos e Leonel Tavares Cabral, membros activos da Maçonaria do Sul. Garrett, em 1840, quando se dizia do centro salienta que os mesmos são defensores da democracia, considerando-os tãonocivos quanto os miguelistas defensores do absolutismo, enquanto um radical como José Liberato chamava a esses defensores do centro ordeiros, também ditos doutrinários, uns fingidos aderentes à Revolução de Setembro.

 

 




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