Respublica
Repertório Português de Ciência Política
Edição electrónica 2004
Necessidade
Categoria típica da filosofia hegeliana, desenvolvida
por Feuerbach: uma existência sem necessidade é uma existência supérflua.
Quem não tem necessidades tão pouco tem necessidade de existir; que exista ou
não é o mesmo, tanto para ele como para os demais. Com efeito, Hegel
definiu a sociedade civil como um sistema de necessidades, dado que ela
tem de produzir o necessário para a subsistência dos respectivos membros através
da troca mercantil. Neste sentido, a necessidade é o local onde se manifesta a
oposição entre o ideal a que se aspira, a ideia, e a realidade do existente, a
praxis, donde surge o impulso para o desenvolvimento, para o devir. O
ideal deixa de ser uma mera ideia abstracta e passa a ser consciência da oposição
entre o ser e o não-ser. As dificuldades, da quais nasce a consciência da
necessidade derivam apenas da exterioridade da natureza, segundo Feuerbach. E
seria a massa, isto é, a humanidade unificada pela religião do amor, que faria
o trânsito da ideia para a praxis. Esta perspectiva ainda marcada pelo
naturalismo será superada pelo historicismo de Marx, dado que para este a
consciência da necessidade não deriva apenas da exterioridade da natureza, mas
da interioridade das condições históricas, da interioridade da sociedade
humana. A necessidade pode transformar-se, de exigência natural, em força
motora da história. Em vez do homem abstracto da natureza, pode surgir o homem
real e vivo da história. A existência passa assim a determinar a consciência.