Respublica Repertório Português de Ciência Política Edição electrónica 2004 |
Camus, Albert (1913-1960)

Escritor e filósofo francês. Membro do Partido Comunista de 1922 a 1937. Destacado militante da resistência e colaborador de Combat. Prémio Nobel da literatura em 1947. Logo em 1943 publicou as célebrea Cartas a um Amigo Alemão, em nome, não de um francês, mas sim de nós, europeus livres Existencialista francês, célebre como romancista, mas também filósofo e teórico político, sobretudo em L’Homme Révolté, de 1951. Natural de Argel, provém da classe operária. Membro activo da Resistência desde 1940, no pós-guerra distancia-se dos existencialistas ligados ao marxismio, como Sartre, Simone Beauvoir e Merleau-Ponty. Morre em acidente de viação em 1960, diatante da esquerda e da direita.
"temos de decidir a introduzir nas coisas do pensamento a distinção necessária entre filosofia da evidência e filosofia da preferência. Por outras palavras, pode atingir-se uma filosofia que repugna ao espírito e ao coração, mas que se impõe"
"a ciência explica o que funciona, não o que é".
E isto porque "toda a teoria", assim considerada, "é uma explicação de conjunto, ligando uma série de fenómenos entre si" e visando apenas "uma tentativa de generalização"
o homem é um ser onde a revolta é sempre mais revolucionária que a revolução, porque, como salienta Camus, se a revolução é "a inserção da ideia na experiência histórica", já a revolta "não passa do movimento que conduz da experiência individual à ideia".
"A revolução é a inserção da ideia na experiência histórica, representa uma tentativa de modelar o acto sobre uma ideia, de moldar o mundo dentro de um caixilho teórico"
"Todo o esforço do pensamento alemão consistiu em substituir a noção de natureza humana pela de situação humana e portanto Deus pela história e o equilíbrio antigo pela tragédia moderna"
refere que a doutina que Marx queria realista "era-o, com efeito, no tempo da religião da ciência, do evolucionismo de Darwin, da máquina a vapor e da indústria textil"
"E se nós todos, que viemos do nietszchismo, do niilismo ou do realismo histórico, confessássemos publicamente que nos enganámos e que há valores morais e que daqui por diante faremos o que é necessário para os fundar"
"os antigos filósofos (naturalmente) pensavam muito mais do que liam. Eis porque se agarravam tão tenazmente ao concreto. A imprensa modificou as coisas. Lê-se mais do que se pensa. Não temos hoje filosofias mas apenas comentários. É o que diz Gilson ao afirmar que à idade dos filósofos que se ocupavam de filosofia sucedeu a idade dos professores de filosofia que se ocupam de filósofos"
"vivemos num mundo em que é preciso escolher sermos vítimas ou carrascos", considerando que "não sou feito para a política, pois sou incapaz de querer ou de aceitar a morte do adversário". (
"Somos feitos para viver ligados aos outros Mas só morremos verdadeiramente para nós. "
Classicismo
o classicismo considerado por Camus como "o domínio sobre as paixões", mesmo as "paixões colectivas", bem como "a confiança nas palavras, utilizadas com prudência"
esta visão pessimista do Estado ressurge em Albert Camus quando teoriza em L'Homme Revolté, o "estranho e aterrador crescimento do Estado Moderno", a "crescente omnipotência" do mesmo. Chega mesmo a falar num "terrorismo do Estado" porque "arrasada a Cidade de Deus, o sonho profético de Marx e as potentes antecipações de Hegel e de Nietzsche acabaram por suscitar um Estado racional ou irracional, mas terrorista em qualquer dos casos".
Esta heteronomia seria potenciada pelas próprias revoluçoes dos tempos modernos:"todas as revoluções modernas conduziram a um revigoramento do Estado. 1789 produz Napoleão; 1848, Napoleão III; 1917, Estaline; os tumultos italianos dos anos 20, Mussolini; a República de Weimar, Hitler. "
"o princípio do direito é o do Estado. Princípio romano que a revolução de 89 reintroduziu no mundo pela força e contra o direito".
Neste sentido considera que "é preciso voltar ao conceito grego que é a autonomia"
"todas as revoluções modernas conduzem a um revigoramento do Estado" e que "o sonho profético de Marx e as potentes antecipações de Hegel ou de Nietzsche acabaram por suscitar um estado, racional ou irracional, mas terrorista em qualquer caso".
Então "o Estado identifica-se com a máquina, isto é, com o conjunto dos mecanismos da conquista e repressão. A conquista dirigida para o interior do país chama-se propaganda ou repressão. Dirigida para o exterior cria o exército"( porque "para adorar por tempos e tempos um teorema, a fé não chega; há ainda que mobilizar a polícia". E "enquanto houver inimigos, reinará o terror, e haverá sempre inimigos enquanto o dinamismo existir e para que ele exista".
Hegel "racionalizou até ao irracionável", dado considerar que todo o ser é dever-ser, "tudo o que é real é racional, tudo o que é racional é real"
"Os homens de acção, quando destituídos de fé, jamais acreditaram noutra coisa que não fosse o dinamismo da acção"
"os homens de acção, quando destituídos de fé, jamais acreditaram noutra coisa que não fosse o movimento da acção".
Daí que o Estado se tenha identificado com a máquina desse movimento perpétuo de conquista, com "o conjunto dos mecanismos de conquista e rep+ressão. A conquista dirigida para o interior do país chama-se propaganda ou repressão. Dirigida para o exterior cria o exército. Todos os problemas são, assim, militarizados, postos em termos de poderio e de eficácia. O general-chefe determina a política e, de resto, todos os principais da administração. Este princípio, irrefutável quanto à estratégia, é generalizado na vida civil. Um chefe único, um povo único, significa um senhor único e milhões de escravos". Por issi, "enquanto houver inimigos, reinará o terror, e haverá sempre inimigos, enquanto o dinamismo existir e para que ele exista... Os inimigos são heréticos; devem ser convertidos pela prédica ou pela propaganda; exterminados pela Inquisição ou pela Gestapo".
O jusracionalismo vai, com efeito, lançar as sementes daquilo que Albert Camus qualifica como o "terrorismo da razão", onde vai filiar-se o posterior "terrorismo de Estado", nosso contemporâneo e nosso convivente. "(
Com Hegel vai hipostasiar-se em termos racionais a vontade geral e, como assinala Albert Camus, a própria "Fenomenologia do Espírito" não passa de um "Emílio metafísico".
foi Saint-Just que "introduziu na história as ideias de Rousseau" e o Contrato Social vai, assim, transformar-se no catecismo de uma "nova religião confundida com a natureza e o seu representante na terra, em vez do rei, o povo considerado na sua vontade geral". Foi a "aurora de uma nova religião, com os seus mártires, os seus ascetas e os seus santos".
Camus explica esta situação porque tal livro de Rousseau, querendo "ser uma pesquisa sobre a legitimidade do poder", acabou por ver neste "já não o que é, mas o que devia ser".
"A filosofia alemã imprimiu um movimento às coisas da razão e do Universo - ao passo que os antigos atribuiam-lhe uma fixidez. Só se ultrapassará a filosofia alemã - quando se definir o que é fixo e o que é móvel (e aquilo que não se sabe se é fixo ou móvel). "

[1942] Le Mythe de Sisyphe (Paris, Éditions Gallimard) (trad. port. de Urbano Tavares Rodrigues, O Mito de Sísifo. Ensaio sobre o Absurdo, Lisboa, Editora Livros do Brasil, s. d.).
[1951] L'Homme Revolté (Paris, Éditions Gallimard) (trad. port de Virgínia Mota, O Homem Revoltado, Lisboa, Editora Livros do Brasil, s. d. ) (nas traduções norte-americanas, utiliza-se a expressão The Rebell).
[s.d.] Primeiros Cadernos (António Quadros, pref., Lisboa, Livros do Brasil, s. d.=.
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