Ernest Renan (1823-1892)

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Depois da queda de Napoleão III, eis que a intelectualidade francesa continua a tentar assumir-se como a maître à penser do europeísmo, emergindo então Ernest Renan (1823-1892), um antigo seminarista que tão acerbamente criticara no regime do Império o sufrágio universal e o plebiscitarismo, por propiciarem o cesarismo.

A ele cabe tanto a regeneração do nacionalismo francês como o relançamento da ideia dos Estados Unidos da Europa, agora contra o perigo de uma hegemonia alemã. Assim se compreende, como, depois de 1870, logo proclame que a Europa é uma confederação de Estados reunidos pela ideia comum de civilização .

Assim, logo em 6 de Dezembro de 1871, na obra La Réforme Intelectuelle et Mortale, repete Victor Hugo, proclamando a necessidade de um Congresso dos Estados Unidos da Europa, no qual se deve corrigir o princípio das nacionalidades pelo princípio da federação, considerando que seriam necessários uns Estados Unidos da Europa ligados entre si por um pacto federal.

Neste sentido, defende uma tripla aliança entre a França, a Grã-Bretanha e a Alemanha, para poder integrar-se a Rússia na Europa mitigando as aspirações prussianas: de facto, se deixarmos de lado os Estados Unidos da América, cujo futuro indubitavelmente brilhante é ainda obscuro e que, de qualquer maneira, ocupa lugar secundário no labor original da mente humana, a grandeza intelectual e moral da Europa repousa na tripla aliança da França, Alemanha e Grã-Bretanha. A sua ruptura seria profundamente danosa para o progresso. Unidas, estas três forças liderariam o mundo e liderariam o bem. Liderariam necessariamente os outros elementos, cada qual de importância considerável, que compõem a Europa. Acima de tudo, forçosamente, traçariam um rumo para outra força que nem se deve exagerar nem depreciar; a Rússia constitui perigo somente se o resto da Europa a abandonar à falsa ideia de uma originalidade que talvez não possua, e permitir-lhe unir-se a povos bárbaros da Ásia central (...) A França é uma das condições da prosperidade britânica. A aliança da França com a Grã-Bretanha está bem firmada para os séculos que virão. Deixemos que a Grã-Bretanha pense nos Estados-Unidos, em Constantinopla, na Índia; ela sempre verificará que precisa da França e de uma França forte .

Só assim se poderia conduzir o mundo pelos caminhos da civilização liberal. Contudo, logo trata de apelar à colonização: a colonização em grande é uma necessidade política de primeira grandeza. Uma nação que não coloniza está irremediavelmente condenada ao socialismo, à guerra dos ricos e dos pobres.

Renan, já em 11 de Janeiro de 1862, na lição inaugural do Collège de France, assinalara que o futuro, senhores, pertence à Europa. A Europa conquistará o mundo e aí espalhará a sua religião que o direito, a liberdade, o respeito pelos homens e esta crença, de que há sempre alguma coisa de divino na humanidade .

Falava então que o génio indo-europeu ficará afamado, quando publica em 1863 La Vie de Jésus, escrito nos próprios lugares Santos, numa capela maronita.

Em 16 de Setembro de 1870 observa: a grande desgraça do mundo é que a Alemanha não compreende a França e a França não compreende a Alemanha.

Mas, já depois de instalada a ordem prussiana, a ideia de uma Europa una (das eine Europe) é defendida por Friedrich Nietzsche (1844-1900), em Gedanken über die liber Europaer, fragmentos póstumos, escritos em 1885 e 1887.

O mesmo autor em Jenseits Von Gut und Böse (Para Além do Bem e do Mal) de 1886, já expressava a sua veia europeísta, quando criticava a ideia moderna que reúne o absurdo parlamentar com a loucura das nacionalidades, detecta contudo os sinais pelos quais a Europa exprime a sua vontade de ser una.

Esta Europa una, feita de bons Europeus, não passava de uma raça de futuro ou de uma nova elite feita de super-homens, não através de uma pureza de sangue, como pretendiam os nacionalistas zoológicos, mas sim pela síntese superior das várias culturas, através de uma revolução vinda de cima marcada pela vontade de poder entendida como vontade de verdade .

Nos fragmentos de 1885 é bem mais explícito quando critica as guerras nacionais: o que me importa é a Europa una. Vejo-a preparar-se lentamente, de uma maneira hesitante. Em todos os espíritos entendidos e profundos deste século, a obra comum da alma consistiu em preparar, calcular e antecipar esta nova síntese: o Europeu do futuro (...) Entretanto, ao lado do que desperta e forma nesses espíritos a necessidade de uma unidade nova, ou para já as necessidades novas desta nova unidade é preciso colocar um grande facto económico que esclarece a situação: os pequenos Estados da Europa — entendo por tal todos os nossos Impérios e Estados actuais — tornar-se-ão economicamente insustentáveis a curto prazo .

É neste ambiente que em 1900, sob o impulso de Anatole Leroy-Beaulieu, se realiza um Congresso de Ciências Políticas, promovido pela Sociedades dos Antigos Alunos da Escola Livre de Ciências Políticas, onde, numa das secções se estudam os Estados Unidos da Europa 

Aí Leroy-Beaulieu, partindo do princípio que não são apenas os sonhadores e os filósofos que suscitaram a velha utopia de uma união europeia, mas também o que qualifica como os espíritos positivos, defende um modelo confederativo para a Europa, à maneira da Confederação Germânica e da Helvética, invocando-se uma ameaça russa e salientando-se o desinteresse britânico pelo processo, em virtude do respectivo império ultramarino: a Europa tem de confederar-se, sob pena de cair ela própria, e a Ásia, e todo o Velho Mundo, sob a hegemonia russa.

Por outras palavras, o europeísmo positivo dessa geração, adopta a perspectiva dos interesses geoestratégicos da França e da Alemanha, que temendo a Rússia e a Grã-Bretanha, não deixam de fazer participar no processo unionista a Turquia, embora a reduzissem à condição de pupila da Europa.

Mas a Europa não consegue superar a dialéctica Estado-nação e as relações internacionais continuam a ser marcadas pelas práticas iluministas das coligações contra a potência que emergisse com mais força. Não tarda que o jogo das diplomacias, de desastre em desastre, conduza à Grande Guerra de 1914-1918.