Abade
de Saint-Pierre
Charles-Irinée
Castel de Saint-Pierre (1658-1743), capelão da duquesa de Orleães, foi assessor do
cardeal Melchior de Polignac, no Congresso de Utreque, entre 1710 e 1712, tendo publicado,
no ano seguinte, o seu Projet, em três grossos e fastidiosos volumes que tiveram
um Abregé, feito pelo próprio autor, em 1729, com 227 páginas.
Ligando
o seu projecto ao suposto plano de Henrique IV, diz que o mesmo foi por este rei inventé,
e, dedicando-o a Luís XIV, vai, no entanto, bem mais longe: descobri que, se as 18
soberanias da Europa, para se conservarem no presente governo, para evitarem a guerra
entre elas e para se procurar todas as vantagens de um comércio perpétuo de nação a
nação, querem fazer um tratado de união e um congresso perpétuo pouco mais ou menos
segundo o mesmo modelo das sete soberanias da Holanda, ou das três soberanias das
Suíças, ou das soberanias da Alemanha, descobri, digo, que o grande poder dos mais
fortes não poderia prejudicá-los, a não ser que cada um fosse exactamente fiel a
promessas recíprocas, que o comércio jamais seja interrompido e que todos os futuros
diferendos terminem sem guerra e pela via da arbitragem.
Nestes
termos, desdobra o respectivo plano, numa série de artigos: no artigo 1º, uma aliança
perpétua entre os soberanos (haverá, a partir de agora, entre os soberanos que
assinarem os cinco presentes artigos, uma aliança perpétua para se garantirem nos
séculos vindouros das guerras estrangeiras e civis; para se manterem e suas famílias na
posse da soberania, segundo a ordem estabelecida nas suas nações respectivas; para
diminuírem as despesas militares e aumentarem a segurança pública; para aperfeiçoarem
o comércio, leis e instituições de seus Estados; para terminarem prontamente sem riscos
nem despesas os litígios futuros; para, enfim, terem a certeza da execução das
promessas e tratados recíprocos) ; no artigo 2º, determinava-se que todos os
meses os plenipotenciárioas dos soberanos aliados fixariam a quantia com que, na
proporção às suas rendas, contribuirá cada Estado para as despesas da grande aliança;
no artigo 3º, estabelecia-se que os soberanos aliados nunca mais recorreriam às armas
para decidirem as questões que entre eles se levantarem e submeter-se-iam à decisão dos
plenipotenciários dos aliados que não entrassem no litígio; no artigo 4º fixava-se que
se algum dos aliados recusasse obediência às decisões dos congressos, e se se rebelasse
contra ele, a grande aliança o forçaria a submeter-se, e seria obrigado a pagar as
despesas que para isso se fizessem; no artigo 5º, fixava-se a possibilidade de revisão
do pacto por simples maioria, a não ser para estes cinco artigos, para os quais se
requeria a unanimidade, bem como para o caso de qualquer modificação das fronteiras
existentes entre os Estados membros .
Todos
os Estados que tivessem, pelo menos, um milhão e duzentos mil súbditos, disporiam de um
número de votos igual, enquanto os pequenos Estados teriam de se unir para atingir o
quorum estabelecido. As decisões do Senado seriam tomadas por maioria e ratificadas, seis
meses depois, por uma maioria de dois terços.
No
plano militar, previa-se que cada Estado, em tempo de paz, não poderia ter uma força
armada superior a seis mil homens. Já em tempo de guerra, o Senado Europeu,
sedeado rotativamente em Estrasburgo e em Dijon, nomearia um generalíssimo, que não
poderia ser membro de qualquer casa soberana, e constituir-se-ia uma força de quinhentos
mil homens, vinte e quatro mil por cada Estado. Condenava-se também qualquer espécie de
diplomacia secreta entre os Estados membros.
Finalmente,
considerava que todas as soberanias terão sempre os mesmos limites que actualmente
dispõem, não podendo qualquer território ser desmembrado de qualquer soberania, nem
qualquer outro poderá ser acrescentado por sucessão, pacto entre diferentes casas,
eleição, doação, cessão, venda, conquista, submissão voluntária dos súbditos ou
qualquer outra forma .
O
projecto vale evidentemente como mais uma das boas intenções totalmente inadequadas às
circunstâncias daquele equilíbrio absolutista e mercantilista, dado que, nos anos
seguintes, novas guerras se seguem, aproveitando os pretextos das sucessões, num
confronto entre Habsburgos e Bourbons, como a Guerra de Sucessão da Polónia (1733-1738),
a guerra da sucessão da Áustria (1740-1748) e a Guerra dos Sete Anos (1756-1763).
É
evidente que o projecto não convinha aos estadistas de então, dado que não só impunha,
às soberanias existentes, os limites do direito (a sociedade organizada dos Estados
deverá garantir os direitos e a vida de cada Estado) como pretendia conservá-las ou
congelá-las nos limites que tinham atingido (todas as soberanias terão sempre os
mesmos limites que têm presentemente, nenhum território poderá ser desmembrado de
qualquer soberania, e nenhum outro poderá ser acrescentado por sucessão, pacto de casas
diferentes, eleição, doação, cessão, venda, conquista, submissão voluntária de
súbditos ou qualquer outro).
Estávamos
em pleno apogeu do século da força e dos Estados em movimento, onde cada
soberano adoptava a máxima que Hobbes atribuíra ao Leviathan em 1651: non est
potestas super terram quae comparetur ei. Estávamos num tempo onde a medida do
direito era a utilidade e onde cada soberano tinha tantos direitos quanto os
respectivos poderes, pelo que cada Estado era um lobo para os outros Estados, numa guerra
de todos contra todos.
Contudo,
ao contrário do que sucedera com os outros projectistas da paz, o Abade é lido pela
opinião crítica da république des lêtres de então, principalmente por Rousseau
e por Kant.
Rousseau,
por exemplo, em 1756, foi encarregue pela família e pelos amigos do abade de resumir
aquilo que qualificava como um fatras de vingt volumes. Em 1761, numas contidas,
objectivas e elegantes quarenta páginas publica um Extrait du Projet de Paix
Perpétuelle de l'Abbé de Saint Pierre, e, em 1782, volta a referir-se à mesma num Jugement
sur la Paix Perpétuelle .
Neste,
acusa os soberanos europeus de serem egoístas e ambiciosos pelo facto de não aceitarem
as propostas do abade, porque graças ao projecto, caso pudesse ser realizado por pessoas
honestas, seria possível estabelecer a république européenne num instante, o
que seria suficiente para a fazer durar eternamente, dado que cada um poderia encontrar
pela experiência o seu proveito particular no bem comum .
Só
que os príncipes não vêem o seu interesse real mas apenas o seu interesse aparente. E
aqui eis que Rousseau, em nome do realismo, critica o utopismo do Abade: ele tinha
tanto prazer em ver funcionar a sua máquina que dificilmente sonhava nos meios de a fazer
andar; a sua imaginação enganava perpetuamente a sua razão .
Assim,
tenta corrigir a versão do abade invocando em seu auxílio o grand dessein de
Henrique IV, dado acreditar que os meios de realizar a Europa só poderiam realizar-se
pela força, para se mudar o estado de coisas: ninguém viu, em nenhum lado, ligas
federativas estabelecerem-se a não ser através de revoluções: e, na base deste
princípio, quem de nós ousará dizer se esta liga europeia é para desejar ou para
recear? .
Se
raciocinámos com exactidão ao expor este plano, está demonstrado: 1º que o
estabelecimento da paz perpétua depende unicamente do consentimento dos soberanos, e a
única dificuldade para a sua realização é a existência que eles lhe possam opor; 2º
que esta instituição por todos os modos lhes seria útil, e que não há comparação
possível entre os inconvenientes e as suas vantagens; 3º que é razoável supor que a
vontade dos soberanos esteja de acordo com os seus interesses; 4º finalmente que esta
instituição, organizada conforme o plano proposto, seria sólida e durável e
preencheria perfeitamente o seu fim.
Isto
não quer dizer que os soberanos adoptarão este projecto (quem pode responder pela
vontade de outrem?) mas que o adoptariam se conhecessem os seus verdadeiros interesses;
porque, é preciso que se note, não supusemos os homens tais como deviam ser: bons,
generosos, desinteressados e amando o bem público por humanidade; mas tais como são:
injustos, ávidos e preferindo a tudo o seu interesse.
A
única coisa que lhes supusemos foi a razão suficiente para conhecer o que lhes é útil,
e o ânimo bastante para fazerem a própria felicidade. Se, apesar de tudo isto, ficar sem
execução este projecto, não é porque seja quimérico; mas sim porque os homens são
insensatos, e é uma espécie de loucura ser sábio no meio de loucos
Mas
Rousseau, nesta crítica a Saint-Pierre, faz ele também uma teoria sobre a união
europeia, distinguindo a ideia antiga de confederação, à maneira das anfictionias
gregas, das modernas, e considerando que nenhuma daquelas iguala a perfeição do Corpo
Germânico, da liga helvética e dos Estados Gerais . Isto é, o genebrino
Rousseau, confessa-se adepto do modelo do Sacro Império e coloca, na sua linha de
desenvolvimento, tanto o modelo da Suíça como o dos Países Baixos.
Mas
diz mais: se acha que estes modelos antigos e modernos são confederações políticas,
expressas na legislação dos povos, haveria outras tácitas, mas não menos reais,
formadas pela analogia dos costumes, dos interesses mútuos, por uma religião e um
direito das gentes comum, pelo comércio, artes e ciências, enfim pela multiplicidade de
relações de todo o género. Essa espécie de sociedade seria a então existente na
Europa .
O Extrait
de Rousseau faz circular o projecto do Abade. Voltaire dedica-lhe o seu Rescrit de
l'Empereur de la Chine à l'occasion du projet de Paix Perpétuelle, onde o imperador
da China chama, ao autor do projecto, l'abbé Saint-Pierre d'Utopie e constrói um
modelo alternativo cuja execução atribui a Frederico II .